Pesquisas revelam divisão de apoio entre Flávio e Michelle, mas impacto nas eleições é incerto
Reinaldo Polito Publicado em 26/07/2026, às 10h55
As pesquisas não oferecem uma leitura única sobre os efeitos do atrito entre Flávio e Michelle Bolsonaro. A Genial/Quaest mostrou que 42% dos entrevistados concordavam mais com Michelle, contra apenas 18% que se alinhavam a Flávio. Já a AtlasIntel revelou que, entre os eleitores de Jair Bolsonaro, 43,2% ficaram ao lado do senador, enquanto 17,3% se posicionaram contra ele.
Os levantamentos mais recentes sobre a corrida presidencial indicam, entretanto, que a briga aparentemente não provocou queda significativa nas intenções de voto de Flávio. Isso não significa que o episódio tenha sido inofensivo. Houve o risco de o candidato do PL perder parte do eleitorado feminino e dos evangélicos, segmentos em que Michelle exerce forte influência.
Ainda que boa parte dos bolsonaristas tenha ficado ao lado de Flávio, um soluço neste momento da corrida presidencial poderia comprometer suas chances de vitória. Por isso, tivesse ele ou não razão no entrevero, o resultado desse embate seria sempre negativo para as suas aspirações.
Diante dessa realidade, considerando que o objetivo maior, e talvez único, neste momento é vencer a eleição, o nome escolhido por Jair Bolsonaro para disputar a Presidência precisou praticar a velha arte de engolir sapos. Gravou um novo vídeo, desta vez com um pedido de desculpas mais explícito à exprimeira-dama. Este é um dos principais trechos da mensagem:
“O momento é difícil para todo mundo. Ninguém é perfeito, eu não sou perfeito e, mais uma vez, peço desculpas por alguns momentos que causaram desconforto. Como somos pessoas públicas, isso acaba sendo explorado pelos nossos opositores.”
Disse ainda: “Eu tenho a convicção que a gente compartilha do mesmo objetivo, trabalhar por um Brasil mais seguro, próspero e cheio de esperança”.
Para quem se sentia ungido pelo pai e, dessa forma, praticamente intocável entre os conservadores, essa demonstração de humildade, forçada ou não pela conveniência do momento, provavelmente deu a Michelle a força que ela desejava para que sua imagem política fosse respeitada e preservada.
Não por acaso, logo em seguida Michelle divulgou um vídeo aceitando o pedido de desculpas. Suas palavras indicaram disposição para superar as diferenças e iniciar uma reconciliação. Ao contrário dos dois vídeos anteriores, que juntos consumiram cerca de 26 minutos, desta vez ela foi bastante concisa. Falou durante apenas 48 segundos. Esta é a parte principal do seu pronunciamento:
“Eu te desculpo. Vamos sentar, conversar, ajustar os detalhes e, juntos, vamos reunir um grande exército de pessoas de bem para resgatarmos o nosso Brasil.”
Acrescentou que é preciso superar os desentendimentos para reconstruir o Brasil, que precisa de gente de pé, não de gente dividida. Demonstrando que houve uma verdadeira força-tarefa para acertar essa reaproximação, agradeceu à governadora Celina Leão e à senadora Damares Alves pela articulação.
O desfecho retirou dos governistas uma boa fonte de desgaste para a campanha de Flávio. O episódio vinha sendo explorado por seus adversários, pois a divisão entre a esposa e o filho do ex-presidente fornecia munição à campanha pela reeleição de Lula.
Mesmo assim, como essa briga de família durou quase um mês, o desgaste tanto para Michelle quanto para Flávio foi considerável. Embora tenham trocado palavras gentis e hasteado a bandeira branca, algumas sequelas podem ter permanecido. Mesmo porque, até a gravação dos vídeos, os dois ainda não haviam conversado diretamente.
Como Michelle ainda não havia vestido a camisa para caminhar ao lado de Flávio na campanha, essa parece ser a melhor oportunidade para que ele passe a contar com esse apoio fundamental. Seu trabalho à frente do PL Mulher foi muito exitoso. Conseguiu reunir eleitoras de todos os cantos do país em torno de sua causa.
Além da influência entre o eleitorado feminino, Michelle possui forte liderança entre os evangélicos. Se esse contingente der apoio a Flávio, sua condição para pleitear o Palácio do Planalto se robustece. Talvez algumas lideranças que até agora não se empenharam com determinação na campanha, a partir desse passo dado pela esposa de Bolsonaro, decidam se unir a ele nessa empreitada.
Em toda família, vez ou outra, acontecem discussões e disputas. Com a família Bolsonaro não é diferente. Mas, como disse Flávio, por serem pessoas públicas, os fatos ganham dimensões inimagináveis. Da mesma maneira que a maioria das famílias encontra meios de afastar as divergências, neste caso não parece ter sido diferente.
Quanto a Michelle, a impressão é de que o problema começou a ser contornado. Flávio precisa agora se dedicar a superar outros obstáculos. Deve buscar o apoio de partidos que lhe garantam tempo de televisão e palanques estaduais capazes de aproximá-lo ainda mais do eleitorado. Esse é o papel do político.
Vamos ver como ele irá se desincumbir dessa tarefa. Não poderá se esquecer, naturalmente, de que do outro lado há um adversário poderoso, com a faca nos dentes, só esperando a oportunidade para atacar. Siga pelo Instagram: @polito