A restauração de obras de arte vandalizadas e o discurso político

Obra 'As Mulatas', de Di Cavalcanti - Imagem: Reprodução | TV Globo

Reinaldo Polito Publicado em 11/01/2026, às 09h00

Foi muito bom saber que as obras vandalizadas no dia 8 de janeiro de 2023 foram recuperadas. É daquelas notícias que realmente alegram. Algumas delas, impossíveis de serem restauradas em sua forma original, ganharam novas configurações e passaram a existir como outra obra de arte. A iniciativa, em si, é louvável.

Ao ler o relato sobre o processo, entretanto, fica a impressão de que essa recuperação se assentou sobre bases fortemente ideológicas. Uma pena.

George Steiner lembrava que a arte começa a perder sua força quando passa a ser convocada para “servir” a uma causa. A obra deixa de dialogar com o tempo longo e passa a responder apenas à urgência do presente.

Política X Arte

Quando a restauração carrega um discurso explícito, a obra deixa de falar por si e passa a depender da concordância ideológica do observador.

Por isso, em governos futuros, com visões distintas das atuais, pode surgir a tentação de novas intervenções, orientadas por outra leitura de mundo. A história urbana brasileira oferece exemplos marcantes desse movimento.

Mudanças de nomes e memória histórica

Obras públicas que homenageavam personagens ligados ao regime militar foram rebatizadas com o objetivo declarado de romper com símbolos da ditadura. A Avenida Presidente Castelo Branco, em Porto Alegre, tornou-se Avenida da Legalidade. A Ponte Presidente Médici, no Recife, passou a se chamar Ponte Paulo Guerra. O Elevado Costa e Silva, em São Paulo, agora tem o nome de Elevado Presidente João Goulart.

Gostando-se ou não desses personagens, eles pertencem à história do país. A pergunta que decorre é inevitável: em algum momento, governos futuros não poderão desejar reverter essas escolhas? Se o fizerem, não incorrerão no mesmo “pecado” que hoje condenam?

O revisionismo cultural, ainda que bem-intencionado, costuma ser uma das formas mais delicadas de desfigurar o passado.

Como agirão governos de visões distintas?

Não é difícil imaginar que administrações conservadoras, que enxergam os acontecimentos de 1964 não como golpe, mas como revolução, se sintam legitimadas a recolocar em evidência os personagens que consideram heróis daquele período. Trata-se de uma hipótese, mas longe de ser inverossímil.

Esse impasse ajuda a compreender a relação entre arte, poder e tempo. Octavio Paz observava que a arte perde sua vocação quando deixa de interrogar o tempo e passa a servir ao instante. Obras submetidas a uma finalidade externa tendem a se fechar sobre si mesmas, tornando-se prisioneiras da circunstância que as produziu.

O risco da arte ficar datada

Ortega y Gasset, por sua vez, alertava que toda criação excessivamente condicionada pelo “clima espiritual” de uma época corre o risco de envelhecer antes mesmo de amadurecer. A arte que permanece é aquela que não se explica demais, que não pede concordância, mas oferece presença. Quando passa a justificar-se, começa a datar-se.

Os trabalhos realizados no Palácio do Planalto são visualmente impactantes. Está de volta a tela As mulatas, de Di Cavalcanti, restaurada pela artista Paula Catu. O vaso italiano A Hidra, completamente destruído, reaparece como nova obra pelas mãos de Angelini.

O critério adotado

Ao comentar o projeto, o curador dos palácios presidenciais, Rogério Carvalho, afirmou que pretendia trazer maior pluralidade ao acervo, que considerava majoritariamente masculino, branco e burguês. O critério explicitado, portanto, parece menos artístico e mais ideológico. Ainda que o resultado possa agradar esteticamente, a justificativa desloca o foco da obra para a mensagem que a acompanha.

Também causa estranhamento a ideia de preservar marcas de destruição como símbolo permanente de um episódio classificado politicamente como “golpista”. Sob outra leitura futura, o mesmo evento poderá ser interpretado apenas como vandalismo. A arte, então, corre o risco de envelhecer mal.
O exemplo japonês

Há exemplos notáveis de transformação que escapam dessa armadilha. O Kintsugi japonês é um deles. Ao recompor um objeto quebrado, o artista não oculta as fraturas. Pelo contrário: valoriza-as com linhas douradas. A peça não retorna ao estado original, mas se torna algo novo, belo e duradouro.

Essas obras atravessam gerações sem exigir alinhamento ideológico. Falam aos olhos, não às convicções políticas.

Quem vê as obras restauradas tende a gostar, aplaudir e até se emocionar. Quando conhece a motivação ideológica que as orientou, parte do encanto pode se perder, especialmente para quem não compartilha dessa visão. E arte que depende de concordância política dificilmente se sustenta no tempo.

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