Reinaldo Polito Publicado em 02/11/2025, às 08h00
Há pouco tempo, Lula, que escorregava nas pesquisas eleitorais, vislumbrou uma luz de crescimento popular ao adotar uma postura mais firme e agressiva contra os Estados Unidos. Em tese, defender a soberania diante de um adversário poderoso como os americanos pode render dividendos junto à população. Esse crescimento, entretanto, só oscilou dentro da margem de erro. Nada, portanto, a ser comemorado.
Sem ter muitas saídas para galgar nas pesquisas, o presidente brasileiro continuou criticando Trump, na esperança de ver seus números crescerem. Agia assim porque o chefe do Executivo americano não se mostrava inclinado a abrir negociações com o Brasil.
Um encontro providencial
Todas as tentativas de aproximação haviam sido em vão. Até a embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti, foi rechaçada com um “tarde demais”. Um grupo de empresários e parlamentares chegou a viajar aos Estados Unidos, mas não foi recebido por quem decide. Conseguiu apenas conversar com deputados democratas, que pouco ou nada podiam fazer.
De repente, por acaso ou não, os dois presidentes se esbarraram nas escadarias do prédio da ONU e trocaram dois dedos de conversa. Para surpresa de todos, ao assomar à tribuna do evento, falando de improviso, Trump fez referências elogiosas a Lula. Disse até que, naqueles 39 segundos de diálogo, havia rolado uma química entre os dois.
Mesuras trumpistas
E mais: comentou que havia gostado de Lula e que, em breve, iriam se encontrar. O que efetivamente aconteceu na Malásia. O que discutiram não foi revelado. Só comentaram que a reunião foi muito boa. Os governistas e parte da grande imprensa favorável a Lula divulgaram aos quatro cantos uma foto em que estavam apertando as mãos.
Há enorme expectativa para ver qual será a sequência dessas tratativas. Em carta enviada a Lula no dia 9 de setembro de 2025, Trump condicionou a revisão das taxas de 50% impostas à maioria dos produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos a questões políticas. Não se sabe se os temas Bolsonaro, liberdade de expressão e Big Techs ficaram fora dessa pauta ou se ainda continuam como condicionantes.
Uma pequena concessão poderia ajudar Lula
Ainda que nada tenha sido acertado na conversa, o encontro é, sem dúvida, uma possibilidade de entrada para novos contatos. Para quem estava com as portas fechadas, é um avanço considerável. Por outro lado, se tudo continuar como está, de que adiantou tirar foto e se fechar em uma sala reservada para os dois?
Há aí duas hipóteses para Lula. A primeira: se conseguir ao menos que mais alguns produtos brasileiros sejam acrescentados aos 700 que gozam de isenção desse tarifaço, já poderá cantar em verso e prosa que os dividendos da negociação começam a ser colhidos. Essa informação, associada à foto, já seria suficiente para fortalecer sua campanha.
As condicionantes políticas
A segunda: se tudo continuar do mesmo tamanho, sem nenhum resultado positivo, poderá argumentar que fez tudo o que estava ao seu alcance, mas que os americanos continuam irredutíveis, atacando, como já estavam fazendo, a soberania nacional. Nos dois casos, poderá obter algum resultado eleitoral.
Se Trump continuar insistindo nas exigências políticas, especialmente no tema Bolsonaro, para o qual Lula não tem a mínima intenção de ceder, tanto por conveniências da sua candidatura ao quarto mandato quanto por se tratar de prerrogativa do Judiciário, novas sanções talvez sejam impostas a outras autoridades, especialmente a ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).
Pressão sobre os ministros
Nesse caso, haverá risco de que alguns deles não suportem a pressão e abandonem o espírito corporativista. Quem viu Alexandre de Moraes e sua família serem penalizados com a Lei Magnitsky, e o agora ex-ministro Luís Barroso se lamentar por causa da perda do visto dele e de seus familiares, chegando a chorar em algumas entrevistas, sabe que a pressão é severa.
Nem todos conseguem suportar essas pesadas sanções e, como espera Trump, podem se sentir motivados a escolher outro caminho. Decisões como essa, difíceis de serem previstas nas circunstâncias atuais, poderiam mudar totalmente o panorama eleitoral do próximo ano, com as previsões de hoje se tornando parte do passado.
Os descaminhos da política
Com uma reviravolta que poucos acreditam possível, Bolsonaro voltaria a concorrer. E sendo ele o mais forte adversário de Lula, novas pesquisas talvez mostrassem que suas chances de voltar a se eleger tirariam Lula do Palácio do Planalto. São apenas elucubrações, mas em política tudo pode acontecer.
Dessa forma, é possível afirmar que a corrida eleitoral para a Presidência da República fica cada vez mais condicionada às ações dos Estados Unidos. De um lado, beneficiando Lula, se conseguir bons resultados em suas negociações; de outro, Bolsonaro, hoje considerado carta fora do baralho, mas que, por um desses descaminhos da vida, poderia voltar ao jogo político.
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