Decreto assinado horas antes da renúncia deu superpoderes à Casa Civil, permitiu mudanças em cargos estratégicos e acirrou disputa política no estado
Ana Beatriz Publicado em 28/03/2026, às 09h22
O último ato do então governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, antes de deixar o cargo, abriu uma nova frente de crise política no estado e levantou suspeitas de uso da máquina pública para influenciar diretamente a sucessão da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).
Horas antes de formalizar sua saída do governo, Castro editou um decreto que ampliava significativamente os poderes da Casa Civil, permitindo interferência direta em nomeações, exonerações e até em áreas sensíveis da gestão orçamentária. A medida, segundo bastidores políticos, criou um ambiente favorável para reorganizar forças dentro do governo em meio à disputa pelo controle da Alerj e da própria sucessão estadual.
Na prática, o decreto autorizou o secretário da Casa Civil a promover mudanças amplas na estrutura administrativa sem necessidade de aval direto do governador em exercício. O movimento foi interpretado por parlamentares como uma tentativa de garantir influência política mesmo após a saída de Castro do cargo.
Nos dias seguintes à publicação do decreto, ao menos 125 exonerações foram registradas em áreas estratégicas da administração estadual, incluindo setores como Educação, Detran e outras pastas com forte peso político. As mudanças atingiram principalmente grupos ligados ao deputado Rodrigo Bacellar, figura central na disputa de poder dentro do estado.
A movimentação ocorreu em meio a uma crise institucional mais ampla no Rio de Janeiro, marcada pela cassação de mandatos, decisões judiciais e uma disputa intensa pelo comando do estado. Com a saída de Castro, o governo passou a ser ocupado interinamente pelo presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Ricardo Couto de Castro, enquanto o estado se prepara para uma eleição indireta que definirá o novo governador.
Parlamentares da oposição afirmam que as exonerações e rearranjos administrativos teriam sido utilizados como instrumento de pressão política para influenciar votos na eleição da presidência da Alerj. Há relatos de que cargos passaram a ser negociados como moeda de troca para consolidar apoio a determinados candidatos.
A Justiça do Rio de Janeiro suspendeu o decreto poucos dias após sua publicação. A decisão apontou que a medida invadia competências exclusivas do governador, especialmente no que diz respeito à gestão orçamentária, considerada parte central do poder executivo.
Mesmo com a suspensão, o impacto político já havia sido consolidado. O episódio reforça o cenário de instabilidade institucional no estado, onde a disputa pelo comando da Alerj se tornou peça-chave na definição do futuro do governo, já que o cargo está diretamente ligado à linha sucessória.
Nos bastidores, a avaliação é de que o decreto não foi apenas um ato administrativo de transição, mas uma estratégia política para manter influência sobre a máquina pública em um momento decisivo.