PF vê Rodrigo Manga como chefe de organização criminosa e aponta esquema milionário de lavagem de dinheiro em Sorocaba

Relatórios da Operação Copia e Cola detalham contratos fictícios, uso de empresas ligadas à família do prefeito e depósitos suspeitos antes de viagem à Disney

Defesa de Rodrigo Manga nega irregularidades e afirma que todas as transações foram declaradas e legais, enquanto a investigação prossegue - Imagem: Reprodução / Youtube - TVSorocabaSBT

Marina Milani Publicado em 12/11/2025, às 07h53

O afastamento de Rodrigo Manga do cargo de prefeito de Sorocaba por 180 dias teve como base um documento da Polícia Federal que o coloca no centro de um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro. Os investigadores afirmam que Manga comandava um grupo estruturado para desviar recursos públicos por meio de contratos de fachada e movimentações financeiras irregulares.

A apuração indica que as atividades ilícitas começaram logo nos primeiros dias do mandato, em janeiro de 2021. De acordo com o relatório, o prefeito teria se beneficiado diretamente de contratos firmados entre empresas de sua família e prestadores de serviço ligados à administração municipal. A PF descreve a rede como uma estrutura voltada a dar aparência legal ao dinheiro desviado dos cofres públicos.

O mecanismo dos contratos de fachada

O principal eixo do esquema passava por contratos de publicidade firmados pela empresa 2M Comunicação e Assessoria, registrada em nome da esposa do prefeito, Sirlange Rodrigues Frate. Os contratos eram assinados com pessoas jurídicas controladas por outros investigados, como a Sim Park Estacionamento Eireli, de Marco Silva Mott, e a Igreja Cruzada dos Milagres dos Filhos de Deus, liderada por Josivaldo Batista de Souza, cunhado de Manga.

Segundo os investigadores, os serviços descritos jamais foram prestados. As notas fiscais serviam apenas para justificar transferências de dinheiro que retornavam ao núcleo do grupo. O relatório afirma que os contratos eram “ficção”, criados para “reinserir na economia formal vultosos valores de origem ilícita”.

A Polícia Federal identificou pagamentos que somam mais de 1,2 milhão de reais. Com a empresa de Marco Mott, foram 448 mil reais. Com a igreja controlada pelos cunhados do prefeito, mais 780 mil. Os valores eram quitados em parcelas mensais, o que, segundo a PF, ajudava a mascarar a movimentação financeira.

Indícios de fraude na Saúde municipal

A investigação também alcançou contratos emergenciais firmados com a Organização Social Instituto de Atenção à Saúde e Educação, antiga Aceni, responsável pela gestão da UPA do Éden e da Unidade Pré-Hospitalar da Zona Oeste. Interceptações telefônicas revelam mensagens de assessores relatando pressão direta do prefeito para acelerar a assinatura dos contratos.

Em uma das conversas, o então secretário municipal Fausto Bossolo diz que “Manga já me esculhambou hoje, pois eu havia falado que ele assinaria hoje”. Para os investigadores, o diálogo indica participação ativa do prefeito nas tratativas que beneficiaram a organização social.

Outro indício de lavagem de dinheiro envolve a compra de um imóvel, parte dele pago em espécie. O relatório menciona o uso de intermediários para ocultar a origem de 182 mil reais em dinheiro vivo.

Depósitos suspeitos antes da viagem à Disney

Durante a análise do celular da primeira-dama, a PF encontrou fotos de nove comprovantes de depósitos em espécie, realizados em 28 de outubro de 2024. Todos os depósitos foram feitos com poucos minutos de diferença, em valores fracionados entre 150 e 1.500 reais, em agências do Banco do Brasil e do Santander.

Os comprovantes estavam em nome de uma empresa chamada “Casas Temporadas Disney”. As transferências ocorreram cerca de duas semanas antes de uma viagem da família do prefeito aos Estados Unidos.

Para a Polícia Federal, a fragmentação dos depósitos indica tentativa de burlar os sistemas de controle financeiro. O relatório destaca que “não haveria razão legítima para a realização de nove depósitos fracionados no mesmo dia, senão a ocultação da origem dos valores”.

Cunhados, operadores e foragida

Os investigadores afirmam que o cunhado do prefeito, Josivaldo Batista de Souza, desempenhava o papel de operador financeiro do grupo. Ele mantinha registros paralelos em seu celular, com anotações de supostas entradas de propina de empresas contratadas pelo município.

Outro personagem central é o empresário Marco Silva Mott, amigo de infância de Manga. Apontado como integrante do núcleo financeiro, ele teria exercido influência sobre contratos e pagamentos. Em sua residência, a PF apreendeu 646 mil reais em espécie.

Na mesma operação, Josivaldo e Mott foram presos. A pastora Simone Rodrigues Frate de Souza, cunhada do prefeito, é considerada foragida desde o dia 6 de novembro. Na casa dela, agentes encontraram 903 mil reais em dinheiro vivo. Segundo o relatório, Simone pagava despesas pessoais de Sirlange e do próprio Manga, como mensalidades escolares e taxas de clube.

Outro lado

A defesa de Rodrigo Manga afirma que a investigação é nula e conduzida por autoridade sem competência legal. Os advogados da primeira-dama sustentam que todas as transações financeiras foram declaradas no Imposto de Renda e correspondem a serviços efetivamente prestados.

Os representantes dos demais investigados negam qualquer participação em atividades ilícitas e dizem que todos os recursos movimentados são lícitos e declarados. A Prefeitura de Sorocaba informou que não foi notificada oficialmente sobre o afastamento e que o setor jurídico ainda não teve acesso ao conteúdo da investigação, que corre sob sigilo judicial.

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