Órgão quer apurar possível uso de recursos públicos e ligação de Daniel Vorcaro com produção de “Dark Horse”
Letícia Sales Publicado em 16/05/2026, às 15h20
O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU) pediu ao Tribunal de Contas da União (TCU) a abertura de uma investigação para apurar possíveis irregularidades envolvendo o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia inspirada no ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O foco da apuração é a origem dos recursos utilizados na produção audiovisual e a eventual participação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro no projeto.
No requerimento enviado ao TCU, o subprocurador-geral do MP junto à Corte, Lucas Furtado, solicita uma série de diligências para verificar se houve uso de incentivos fiscais, recursos públicos ou mecanismos de ocultação financeira relacionados ao longa-metragem.
Entre os pontos levantados estão a possível utilização de verbas oriundas de emendas parlamentares, contratos administrativos, convênios, termos de fomento e benefícios tributários ligados à produção. O órgão também pede que sejam investigados aportes financeiros de empresas ligadas ao Banco Master ou ao próprio Daniel Vorcaro.
Além disso, o MPTCU quer rastrear o fluxo financeiro citado em reportagens jornalísticas e verificar se empresas intermediárias ou estruturas societárias foram usadas para esconder a origem ou o destino dos valores investidos no projeto.
À CNN Brasil, o senador Flávio Bolsonaro confirmou que um fundo ligado a Vorcaro teria investido mais de US$ 12 milhões na produção.
“O orçamento previsto era de US$ 24 milhões, não houve captação disso tudo. O que foi investido por ele [Vorcaro] neste fundo privado também, tudo 100% privado, foi uma quantia um pouco superior a 12 milhões e alguma coisa de dólares”, afirmou o parlamentar.
A declaração ocorreu após a divulgação, pelo The Intercept Brasil, de um áudio em que Flávio Bolsonaro aparece cobrando parcelas do banqueiro.
Em contrapartida, a produtora GOUP Entertainment negou qualquer recebimento de recursos do Banco Master ou de empresas controladas por Vorcaro.
“Não recebemos um único centavo do Banco Master ou de qualquer outra empresa que Daniel Vorcaro tivesse participação”, informou a empresa em nota.
O deputado federal Mário Frias, que atua como produtor executivo do filme, inicialmente também negou qualquer vínculo financeiro com Vorcaro.
“Não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse”, declarou.
Posteriormente, porém, Frias reconheceu que houve um repasse feito pela empresa Entre Investimentos e Participações, parceira de outros negócios ligados ao ex-banqueiro.
“O nosso relacionamento jurídico foi firmado com a Entre, pessoa jurídica distinta”, disse o deputado.
Outro ponto citado no pedido do MPTCU envolve uma investigação da Polícia Federal sobre a possibilidade de parte dos recursos solicitados por Flávio Bolsonaro a Vorcaro ter sido usada para custear despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
No documento encaminhado ao TCU, Lucas Furtado afirma que as divergências nas versões apresentadas e os altos valores movimentados fortalecem suspeitas sobre possível ocultação patrimonial e uso indevido de estruturas financeiras ligadas ao poder público.
“No caso concreto, o agente privado se utiliza de uma estrutura bancária inflada por recursos públicos para comprar influência ou saldar interesses pessoais de autoridades em troca de facilidades regulatórias e aportes estatais”, diz o requerimento.
O subprocurador ainda classificou os fatos como “extremamente graves” e afirmou que, caso as irregularidades sejam confirmadas, pode haver prejuízo aos cofres públicos.
“Tais fatos, portanto, apontam que o financiamento da ‘superprodução cinematográfica’ não se limitou a uma mera e inocente relação entre entes privados”, concluiu.