Afastado do cargo, prefeito de Sorocaba mistura religião e política em discurso que ignora indícios de lavagem de dinheiro e contratos fantasmas apontados pela Polícia Federal
Redação Publicado em 12/11/2025, às 08h16
O afastamento de Rodrigo Manga do cargo de prefeito de Sorocaba por 180 dias teve como base um documento da Polícia Federal que o coloca no centro de um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro. Os investigadores afirmam que Manga comandava um grupo estruturado para desviar recursos públicos por meio de contratos de fachada e movimentações financeiras irregulares.
A apuração indica que as atividades ilícitas começaram logo nos primeiros dias do mandato, em janeiro de 2021. De acordo com o relatório, o prefeito teria se beneficiado diretamente de contratos firmados entre empresas de sua família e prestadores de serviço ligados à administração municipal. A PF descreve a rede como uma estrutura voltada a dar aparência legal ao dinheiro desviado dos cofres públicos.
Mesmo sob o peso das acusações, Rodrigo Manga segue ativo nas redes sociais, adotando um discurso messiânico e apelando à fé para justificar sua situação. Em um vídeo publicado recentemente no Instagram, ele diz: “Pare de chorar por mim, ore. Se eu estou errado, se eu sou mentiroso e se eu tenho enganado a população, tudo que eu estou vivendo é porque eu mereço. Eu quero sair da política, quero que Deus me tire da política e nunca mais eu possa ajudar ninguém.”
Na sequência, ele reforça: “Se eu sou temente a Deus e se faço política pra ajudar as pessoas, em especial aqueles que mais precisam, em poucos dias a justiça de Deus e dos homens vai se cumprir e eu vou estar de volta cuidando da população de Sorocaba. Compartilhe e salve esse vídeo pra que você possa reportar depois, em nome de Jesus.”
Enquanto as investigações revelam contratos fantasmas, depósitos fracionados e vínculos familiares em negócios milionários, o prefeito tenta transformar o escândalo em cruzada espiritual. A retórica religiosa substitui explicações objetivas, e o nome de Deus é invocado como se fosse um salvo-conduto político.
Nas redes, a pregação se mistura à autopiedade. Entre versículos e promessas de retorno, Manga tenta reconstruir sua imagem com o mesmo método que o levou ao poder: a fé como ferramenta de persuasão. Para parte da população e para os investigadores, o tom de devoção soa mais como desespero e o uso do nome de Deus em vão virou símbolo da tentativa de escapar do peso das provas.