O presidente propõe aproximação com mercados asiáticos e reforça a necessidade de infraestrutura para facilitar o comércio
Gabriela Thier Publicado em 03/07/2025, às 17h45
Na última quinta-feira (3), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou uma série de pautas durante a 66ª Cúpula do Mercosul, realizada em Buenos Aires, Argentina. O encontro marcou a transferência da coordenação do bloco sul-americano, anteriormente sob a liderança do presidente argentino Javier Milei.
O evento reuniu líderes de países-membros, incluindo Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, além da Bolívia, que está em processo de adesão, e outras nações associadas. O objetivo foi discutir questões prioritárias que afetam o bloco.
A presidência brasileira destacou a importância de fortalecer a Tarifa Externa Comum (TEC), além de integrar os setores automotivo e açucareiro ao regime comercial do Mercosul. Também foram abordados esforços para aprimorar os mecanismos de financiamento voltados para infraestrutura e desenvolvimento regional.
No seu discurso, Lula enfatizou a necessidade de modernizar o sistema de pagamentos utilizando moedas locais, com o intuito de facilitar transações digitais entre os países membros.
O presidente brasileiro descreveu o Mercosul como um pilar de segurança para as nações da região em um cenário global caracterizado por instabilidades. "Em mais de trinta anos, construímos uma base sólida que pode resistir às adversidades. Criamos uma rede de acordos que abrange Estados associados, transformando toda a América do Sul em uma área de livre comércio fundamentada em regras claras", declarou.
Lula ressaltou ainda que a presença no Mercosul oferece proteção aos países envolvidos. "Nossa Tarifa Externa Comum nos resguarda contra guerras comerciais externas. Nossa robustez institucional nos qualifica como parceiros confiáveis no cenário internacional. É um desafio manter nossa autonomia em um contexto cada vez mais polarizado", afirmou.
Durante a presidência argentina no Mercosul, um dos acordos estabelecidos foi a flexibilização da aplicação da tarifa comum sobre determinados produtos. Essa nova medida permitirá que 50 códigos tarifários tenham a cobrança da TEC ajustada conforme as necessidades de cada país.
A Tarifa Externa Comum é uma alíquota unificada aplicada pelo Mercosul sobre produtos importados de fora do bloco, visando estimular o comércio interno. Em vigor desde os primórdios do Mercosul na década de 1990, essa aprovação é vista como uma concessão do governo brasileiro atendendo a um pedido argentino e visa aprimorar a capacidade do bloco diante de distorções comerciais.
Em termos de acordos comerciais, Lula identificou como prioridade fortalecer as relações comerciais entre os membros do Mercosul e com parceiros externos. Um dos principais objetivos é finalizar o acordo com a União Europeia (UE), considerado crucial. Embora as negociações já tenham sido concluídas, o processo de internalização enfrenta desafios, especialmente devido à resistência da França.
No dia anterior à cúpula, foi anunciado que as negociações para um acordo entre o Mercosul e a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) foram finalizadas, envolvendo Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça.
Além disso, o Mercosul pretende estabelecer acordos específicos com o Canadá e os Emirados Árabes Unidos e buscar novas parcerias regionais com países como Panamá e República Dominicana. Atualizações também estão previstas para os acordos existentes com Colômbia e Equador.
Lula expressou sua intenção de aproximar as nações do Cone Sul dos mercados asiáticos. "A participação nas cadeias globais de valor será beneficiada por uma maior aproximação com Japão, China, Coreia do Sul, Índia, Vietnã e Indonésia", destacou ele, mencionando a importância da infraestrutura adequada para facilitar a circulação de bens e serviços através dos projetos Rotas da Integração Sul-Americana e Rota Bioceânica.
Para os próximos meses sob a presidência brasileira, está previsto o lançamento da segunda edição do Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem). Este mecanismo visa financiar iniciativas voltadas ao comércio entre os países membros. Historicamente, o Focem já possibilitou mais de US$ 1 bilhão em investimentos em infraestrutura em países como Argentina e Paraguai.
Por fim, Lula reforçou a necessidade de reativar o Fórum Empresarial do Mercosul e ampliar o suporte às pequenas e médias empresas. "Não se constrói prosperidade apenas com grandes negócios", concluiu.