Ministério das Relações Exteriores afirma que encontro de integrante do governo americano com o ex-presidente pode representar ingerência em assuntos internos do Brasil
Lívia Gennari Publicado em 12/03/2026, às 16h49
O Ministério das Relações Exteriores informou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que a eventual visita de um integrante do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao ex-presidente Jair Bolsonaro pode ser interpretada como interferência indevida em assuntos internos do Brasil.
A manifestação foi encaminhada à Corte após solicitação do ministro Alexandre de Moraes, que pediu esclarecimentos sobre a agenda do assessor norte-americano Darren Beattie no país.
O pedido de informações surgiu depois que a defesa de Bolsonaro solicitou autorização para que Beattie visitasse o ex-presidente na prisão. Desde janeiro, Bolsonaro cumpre pena de 27 anos por participação na tentativa de golpe registrada em 2022. Ele está detido no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha.
Inicialmente, Moraes autorizou a visita para o dia 18 de março, em data diferente da solicitada pela defesa. Os advogados recorreram da decisão, alegando que o assessor americano teria compromissos em São Paulo naquele dia, relacionados a um evento sobre terras raras e minerais estratégicos, e pediram a antecipação do encontro para a segunda-feira (17).
Diante da solicitação, Moraes pediu ao Itamaraty detalhes sobre a agenda diplomática de Beattie. No documento encaminhado ao STF, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que a presença de um representante estrangeiro em reunião com um ex-presidente brasileiro preso, especialmente em período eleitoral, pode levantar questionamentos sobre ingerência externa.
"A visita de um funcionário de Estado estrangeiro a um ex-Presidente da República em ano eleitoral pode configurar indevida ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro", afirma Vieira.
Segundo o ministério, a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília enviou um e-mail solicitando reunião entre Beattie e a Coordenação-Geral de Combate a Ilícitos Transnacionais para o dia 17 de março à tarde. No entanto, o Itamaraty informou que o encontro ainda não havia sido confirmado.
A pasta também destacou que, no processo de solicitação de visto, não havia qualquer indicação de que o assessor pretendia realizar outras reuniões ou visitas além das previamente informadas. De acordo com o ministério, a autorização de entrada no país foi concedida com base apenas nas justificativas oficiais apresentadas pelo Departamento de Estado norte-americano.
Quem é Darren Beattie
Nomeado recentemente para o cargo no governo Trump, Beattie é responsável por formular e acompanhar as políticas dos Estados Unidos relacionadas ao Brasil.
Ele também protagonizou atritos diplomáticos ao criticar publicamente Moraes, a quem classificou como responsável por perseguição política contra Bolsonaro, declarações que levaram o Itamaraty a convocar representantes da diplomacia americana para prestar esclarecimentos.
A repercussão do episódio se intensificou nas redes sociais após o deputado federal Eduardo Bolsonaro agradecer publicamente ao assessor pelas posições adotadas em defesa do ex-presidente.