Em entrevista, Fernando Haddad afirmou que o estado “não está tão bem quanto parece”, criticou indicadores de segurança, educação, saúde e finanças, confirmou articulações políticas para a disputa de 2026 e voltou a se apresentar como opção de mudança no principal colégio eleitoral do país.
Ana Beatriz Publicado em 11/04/2026, às 10h22
Pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad elevou o tom contra a atual gestão estadual ao afirmar que, após estudar a execução das secretarias e os programas do governo, encontrou uma realidade “bastante diferente” da imagem transmitida no noticiário. Na entrevista ao Poder Expresso, do SBT News, o ex-ministro da Fazenda disse que passou a olhar mais de perto áreas como segurança pública, educação, saúde, infraestrutura, agronegócio, transparência e contas do estado, e concluiu que São Paulo teria sofrido “retrocesso” em vários setores.
A fala ocorre menos de um mês após o PT lançar oficialmente Haddad como pré-candidato ao Palácio dos Bandeirantes. O anúncio foi feito em 19 de março, em evento no ABC Paulista, com apoio público do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do vice-presidente Geraldo Alckmin. Do outro lado, o governador Tarcísio de Freitas já declarou que pretende disputar a reeleição em 2026, desenhando desde cedo uma polarização de peso em São Paulo.
Na entrevista, Haddad construiu sua crítica com base em dois eixos. O primeiro foi administrativo. Segundo ele, o estado estaria “ficando para trás” em políticas públicas e longe da fronteira do que há de mais moderno em gestão. O petista citou, de forma direta, queda na qualidade da educação, sensação de insegurança nas grandes metrópoles, problemas na saúde, preocupação com investimento e finanças públicas e falta de transparência nas contas estaduais. Ao longo da conversa, repetiu mais de uma vez que está “muito preocupado” com os indicadores que encontrou ao analisar a máquina estadual.
O segundo eixo foi político. Haddad tentou se apresentar não apenas como adversário, mas como alternativa de gestão. Disse que sua candidatura quer oferecer ao eleitor paulista “uma alternativa consistente de gestão pública” e afirmou ter convicção de que poderá apresentar um plano “melhor do que o que foi feito em São Paulo nos últimos quase quatro anos”. Em outro momento, questionou diretamente as razões para uma eventual continuidade do atual governo ao perguntar “qual é a marca” e “qual é o indicador” que justificaria a permanência do projeto de Tarcísio.
Na área da segurança pública, o ex-ministro foi ainda mais incisivo. Haddad disse que São Paulo tem condições de enfrentar o crime organizado “como não estamos fazendo” e acusou a atual administração de resistir à cooperação com o governo federal e com outros entes. Segundo ele, o governo paulista estaria “muito ensimesmado”, voltado para si mesmo e sem compreender a necessidade de articulação interfederativa e internacional para atacar facções, lavagem de dinheiro e contrabando de armas. O petista também defendeu uma “nova forma de gestão” da segurança, baseada em integração entre instituições, e afirmou que, sem organização estatal, o crime organizado tende a avançar.
A educação apareceu como outro ponto central do ataque político. Haddad afirmou que São Paulo, mesmo sendo o estado mais rico da federação, estaria “ficando para trás” nessa área. Em uma das declarações mais duras da entrevista, criticou a presença de profissionais sem preparo adequado em sala de aula e disse que situações como essa precisariam ser corrigidas imediatamente. A crítica ajuda a desenhar um dos prováveis campos de confronto da eleição: de um lado, a defesa do atual modelo de gestão estadual; de outro, a tentativa do PT de transformar educação e segurança em vitrines do desgaste do governo.
Além do conteúdo programático, Haddad também sinalizou a estratégia de alianças. Ele confirmou que trocou mensagens com Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, e indicou que busca diálogo para entender por que o partido apoiaria Tarcísio “depois desses três anos”. O gesto tem peso político porque tenta abrir brecha em um campo hoje mais próximo do governador, ao mesmo tempo em que passa a mensagem de que sua campanha pretende conversar com setores além da base tradicional da esquerda.
Haddad também mencionou nomes de peso no entorno da pré-campanha, como Márcio França, Simone Tebet, Marina Silva e a liderança do agro Teca Vendramini, apresentando o movimento como parte da construção de um plano de governo “moderno” e mais alinhado ao tamanho da economia paulista. Ainda sem fechar chapa, ele tenta se posicionar como candidato capaz de reunir quadros técnicos, apoio político ampliado e discurso de modernização para enfrentar um governador que buscará novo mandato.
No centro da entrevista, porém, ficou a decisão de nacionalizar e estadualizar ao mesmo tempo o discurso. Nacionalizar, ao se credenciar como nome de confiança de Lula e peça importante do campo governista. Estadualizar, ao martelar que São Paulo “pode mais” e que a vitrine administrativa do atual governo não corresponderia ao que ele afirma ter encontrado ao examinar os dados e a execução pública. Com a pré-candidatura já oficializada e o cenário de reeleição de Tarcísio posto, a disputa em São Paulo começa a ganhar contornos de confronto direto entre continuidade e mudança.