Ministro atribui crise ao sistema financeiro, cita falhas de fiscalização e critica desgaste da Corte em meio a tensões internas no tribunal
Lívia Gennari Publicado em 24/05/2026, às 16h47
O ministro Gilmar Mendes afirmou que a crise envolvendo o Banco Master foi associada de maneira equivocada ao Supremo Tribunal Federal (STF) e defendeu que o problema tem caráter sistêmico, ligado ao mercado financeiro e aos órgãos de controle. Em entrevista à Folha de S.Paulo, o decano da Corte declarou que o episódio não deve ser tratado como uma crise do Judiciário.
A crise do Master não está na Praça dos Três Poderes, está na Faria Lima”, afirmou.
Ao comentar o caso, Gilmar citou supostas falhas de fiscalização da Comissão de Valores Mobiliários e do Banco Central do Brasil. O escândalo ganhou repercussão dentro do STF após virem à tona informações sobre relações dos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Sem citar detalhes das investigações, Gilmar afirmou que não pretende “isentar de responsabilidade quem tem”, mas ressaltou que eventuais vínculos entre integrantes da Corte e Vorcaro estariam sendo apurados pelas autoridades competentes. O ministro também buscou afastar a ideia de uma crise institucional concentrada no Supremo, argumentando que o foco principal deve estar no funcionamento do sistema financeiro e nos mecanismos de controle.
Tensão nos bastidores
Durante a entrevista, o decano ainda fez críticas à condução interna do STF e comentou o desconforto causado pela proposta de código de ética apresentada pelo presidente da Corte, Edson Fachin. Segundo Gilmar, a iniciativa acabou surgindo em um momento delicado para ministros que enfrentavam desgaste público, o que teria ampliado a insatisfação nos bastidores.
Apesar das divergências, o magistrado negou que exista uma divisão no Supremo e afirmou que a presidência do tribunal precisa atuar para conter desgastes entre os integrantes da Corte. A tensão interna, no entanto, ganhou força após a revelação de mensagens trocadas entre Fachin e Gilmar, nas quais o decano critica a condução de processos considerados relevantes.
Nas conversas, Gilmar questiona o número de ações importantes que, segundo ele, estariam paradas por decisões relacionadas à pauta do tribunal. O ministro comparou a situação ao chamado “filibuster”, prática usada na política dos Estados Unidos para atrasar votações e deliberações por meio de mecanismos regimentais. Para o decano, a dificuldade de avançar em temas sensíveis estaria se tornando uma marca da atual gestão do STF.