Ação por racismo religioso

Família de Preta Gil mantém ação cível contra padre após acordo criminal

Processo por danos morais segue na Justiça do Rio mesmo após ANPP homologado na Paraíba

Gilberto Gil participou de ato inter-religioso em apoio à causa, enfatizando a importância do respeito entre diferentes crenças - Imagem: Reprodução/migalhas

Letícia Sales Publicado em 02/03/2026, às 13h36

A família da cantora Preta Gil decidiu manter a ação por danos morais contra o padre Danilo César de Souza Bezerra, da Paróquia de São José, em Areial (PB), mesmo após a celebração de acordo na esfera criminal. O processo tramita na 41ª Vara Cível do Rio de Janeiro e pede indenização de R$ 370 mil.

A controvérsia teve origem em declarações feitas pelo religioso durante uma homilia transmitida ao vivo, em julho do ano passado. Ao comentar a morte da artista, o padre questionou publicamente a fé dela e de seu pai, Gilberto Gil, mencionando religiões de matriz africana.

As falas motivaram investigação do Ministério Público Federal (MPF), que entendeu ter havido racismo religioso, por considerar que as declarações extrapolaram o campo da crítica teológica e atingiram diretamente tradições afro-brasileiras.

O procedimento criminal resultou em um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP), homologado pela 16ª Vara Federal da Paraíba em 21 de janeiro deste ano. Entre as condições impostas estão a participação do padre em cursos de letramento racial e intolerância religiosa, a leitura e produção de resenhas sobre obras relacionadas às religiões de matriz africana e o pagamento de compensação financeira a uma entidade de apoio a comunidades afrodescendentes.

Apesar do acordo criminal, a disputa na esfera cível continua. A advogada da família, Layanna Piau, afirmou para a CNN Brasil que a manifestação apresentada pela defesa no processo por danos morais negou a prática de ato ilícito, mesmo após o entendimento firmado na Justiça Federal. Segundo ela, diante desse posicionamento, a família optou por dar continuidade à ação, sem descartar eventual composição futura.

A defesa do padre e da Mitra Diocesana de Campina Grande já foi protocolada. O processo agora aguarda a réplica da parte autora.

Como parte do acordo criminal, foi realizado em 6 de fevereiro um ato inter-religioso na sede do MPF, em João Pessoa, reunindo representantes de diferentes tradições religiosas e familiares de Preta Gil. Na ocasião, Gilberto Gil agradeceu o gesto de reparação e defendeu a importância do respeito e da convivência harmoniosa entre crenças.

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