Deputada pede que padre seja investigado por racismo religioso, violação de culto e violência simbólica contra comunidade de matriz africana
Lívia Gennari Publicado em 21/11/2025, às 12h00 - Atualizado às 18h00
A deputada federal Erika Hilton acionou o Ministério Público de São Paulo para que investigue, como crime de racismo religioso, a invasão de um terreiro de matriz africana por um padre no litoral paulista. A representação foi protocolada na última terça-feira (18) no Grupo Especial de Combate aos Crimes Raciais e de Intolerância (GECRADI) e aponta que o religioso interrompeu um ritual sagrado, proferiu ofensas racistas e violou o direito constitucional de livre exercício de culto.
O caso aconteceu em Praia Grande e ganhou repercussão após a divulgação de vídeos que mostram o padre entrando de maneira brusca no terreiro, durante uma cerimônia conduzida pelo Babálórìsà Sidnei Santos de Xangô. Nas imagens, ele aparece chamando o líder espiritual de “macaco nojento”, expressão que, segundo a representação, não atinge apenas a vítima direta, mas toda a comunidade vinculada às tradições de matriz africana.
Para Erika Hilton, o episódio ultrapassa qualquer narrativa de desentendimento religioso.
“Não se trata de um conflito entre crenças, mas de um ataque à dignidade humana, à liberdade de culto e ao Estado laico”, afirmou.
A deputada destacou ainda que o Brasil “não pode naturalizar que agentes religiosos utilizem sua posição para humilhar, violentar e atacar tradições negras”.
Na peça enviada ao GECRADI, Hilton solicita a abertura imediata de investigação criminal, o enquadramento dos fatos como racismo religioso (crime inafiançável e imprescritível), e a apuração de delitos como violação de sentimento religioso e perturbação de culto.
A deputada também requer a custódia do vídeo que registra o ataque, a oitiva de todas as pessoas presentes na cerimônia e a adoção de medidas protetivas urgentes para o Babálórìsà Sidnei Santos de Xangô e sua comunidade, incluindo a prevenção de possíveis retaliações, a garantia de segurança no entorno do terreiro e ações para impedir novas intimidações ou ameaças contra os integrantes da casa religiosa.
A representação menciona ainda que a Arquidiocese de Santos divulgou nota pública de repúdio à conduta do padre e informou ter instaurado processo administrativo interno. Apesar disso, a parlamentar sustenta que o caso demanda resposta firme do Estado.
Erika Hilton afirma que o ataque expõe o racismo estrutural que ainda recai sobre os povos de terreiro e defende que a atuação do Ministério Público é fundamental para coibir novas violações.
Atacar um terreiro é atacar a história, a memória e a resistência de um povo”, declarou. “O Estado deve agir com firmeza para impedir que a intolerância religiosa continue se manifestando como racismo aberto”.
A investigação criminal agora cabe ao MP-SP, que deverá avaliar o pedido e determinar os próximos passos do procedimento.