Nova versão do acordo está também é analisada pela PGR em investigação que apura suspeitas de fraudes financeiras, corrupção e organização criminosa
Lívia Gennari Publicado em 03/06/2026, às 14h36 - Atualizado às 14h50
A defesa do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, apresentou à Polícia Federal (PF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR) uma nova versão da proposta de acordo de colaboração premiada. O documento foi entregue na última segunda-feira (1º), e recebeu um complemento na terça-feira (2), em uma tentativa de avançar nas negociações após a rejeição da primeira proposta apresentada no mês passado.
Representantes da PF e da PGR se reuniram com a defesa de Vorcaro para analisar os novos elementos. Uma nova rodada de conversas estava prevista para esta quarta-feira (3), mas acabou adiada após os investigadores solicitarem mais tempo para examinar o material.
As tratativas ocorrem em meio ao aprofundamento das investigações que têm como alvo o banqueiro. Segundo fontes ligadas ao caso, a versão inicial da delação foi considerada insuficiente por não trazer informações relevantes além daquelas já identificadas pela Polícia Federal. Havia também a avaliação de que o conteúdo apresentado evitava implicar pessoas próximas ao empresário.
Após a rejeição da primeira proposta, o advogado José Luís Oliveira Lima deixou a defesa. A condução das negociações passou a ficar sob responsabilidade do advogado Sérgio Leonardo.
Segundo os investigadores, Vorcaro se dispôs a elevar de R$ 40 bilhões para R$ 60 bilhões o valor que pretende devolver aos cofres públicos caso o acordo de colaboração seja homologado. A oferta faz parte das tentativas de convencer as autoridades a avançarem nas negociações.
O banqueiro está preso preventivamente e, no mês passado, foi transferido para uma cela comum na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília.
As apurações conduzidas pela PF apontam para um conjunto de crimes que vai além de irregularidades financeiras. A análise preliminar de parte dos celulares apreendidos com Vorcaro teria revelado indícios de corrupção, organização criminosa, invasão de dispositivos eletrônicos, intimidação de adversários e utilização de uma estrutura paralela para obtenção de informações sigilosas.
Esquema financeiro
No centro da investigação está a suspeita de que o Banco Master teria sido utilizado para inflar artificialmente indicadores financeiros e transmitir ao mercado uma imagem de solidez inconsistente à realidade. Segundo a Polícia Federal, a estratégia permitia captar recursos de investidores e realizar operações bilionárias sem lastro compatível.
Relatórios do Banco Central apontaram inconsistências em operações envolvendo Certificados de Depósito Bancário (CDBs). De acordo com os investigadores, a instituição teria emitido cerca de R$ 50 bilhões nesses títulos oferecendo remunerações acima das praticadas pelo mercado, sem comprovar capacidade financeira suficiente para honrar os compromissos assumidos. A PF também afirma que uma rede de fundos de investimento e empresas ligadas ao grupo era utilizada para dificultar o rastreamento das movimentações financeiras.
Vínculo com PCC
Outra frente de apuração busca esclarecer possíveis conexões entre a estrutura financeira ligada ao Banco Master e a Operação Carbono Oculto, que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro relacionada ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
De acordo com a PF, mecanismos semelhantes aos utilizados para inflar resultados da instituição financeira teriam aparecido em operações envolvendo empresas investigadas por ligação com a facção criminosa.
Suspeitas de influência sobre órgãos de fiscalização
As investigações também apuram um suposto esquema de corrupção envolvendo servidores públicos. A Polícia Federal suspeita que integrantes da alta cúpula do Banco Central teriam recebido pagamentos mensais para fornecer informações privilegiadas e antecipar ações de fiscalização relacionadas ao Banco Master.
Segundo os investigadores, os repasses poderiam chegar a R$ 1 milhão por mês. Em troca, os servidores supostamente compartilhariam dados internos, revisariam documentos de interesse do grupo e alertariam sobre procedimentos regulatórios antes de sua realização.
A defesa de Daniel Vorcaro nega irregularidades e busca avançar nas negociações de colaboração premiada enquanto as investigações seguem em andamento. Até o momento, não há decisão sobre a eventual homologação do acordo.