Comissão Parlamentar de Inquérito do Crime Organizado autoriza acesso a dados bancários e fiscais do Fundo Arleen, que comprou participação no resort Tayayá ligado à família de Dias Toffoli; investigação busca contornar veto do STF ao sigilo da empresa do ministro.
Ana Beatriz Publicado em 18/03/2026, às 21h09
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado aprovou, na noite desta quarta‑feira (18/3), a quebra dos sigilos bancário e fiscal do fundo Arleen, que adquiriu participação na empresa que controla o resort Tayayá, no norte do Paraná, em negócio que envolve a família do ministro Dias Toffoli, do **Supremo Tribunal Federal (STF). A decisão foi tomada após requerimento apresentado pelo senador Sergio Moro (União Brasil‑PR), com o objetivo de aprofundar as investigações mesmo diante de decisões da própria Corte que limitaram o alcance das quebras de sigilo.
O pedido aprovado pelo colegiado abrange o intervalo de 9 de fevereiro de 2021 a 29 de janeiro de 2026, período em que o fundo passou a integrar a sociedade do empreendimento e iniciou movimentações financeiras que agora despertam interesse dos parlamentares. A estratégia é contornar o impedimento de acesso direto às contas da empresa Maridt Participações S.A., da qual o ministro Toffoli é sócio, cujo sigilo havia sido objeto de decisão anterior da CPI, mas que foi inutilizado após ordem do ministro Gilmar Mendes, do STF.
O Fundo Arleen comprou a participação da Maridt na sociedade que controla o resort Tayayá, localizado em Ribeirão Claro (PR), por aproximadamente R$ 20 milhões, conforme registros da Junta Comercial do Paraná. O Arleen, por sua vez, é integralmente controlado pelo Fundo Leal, cujo único cotista é o empresário Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master — outra instituição no centro de investigações por supostas fraudes e lavagem de dinheiro.
O que a CPI busca com a quebra de sigilos
Parlamentares afirmam que o objetivo é identificar:
O relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), citado pela imprensa, mostrou que Zettel movimentou cerca de R$ 99,2 milhões em sete meses, volume considerado “incompatível com sua capacidade financeira declarada”, com parte dessas transferências ocorrendo simultaneamente à compra de participação no resort Tayayá.
Controvérsia e decisões judiciais
O episódio vem se desenrolando em meio a uma forte disputa institucional. Em fevereiro, a CPI chegou a aprovar a quebra dos sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático da Maridt Participações, empresa ligada ao ministro Toffoli, e a convocar seus familiares e outros nomes ligados ao caso. Contudo, essa decisão foi suspensa por despacho do ministro Gilmar Mendes, que determinou a inutilização dos dados enviados à comissão, gerando críticas dos parlamentares.
Após a polêmica, Toffoli deixou a relatoria dos processos relacionados ao caso Master no STF, que agora está sob responsabilidade do ministro André Mendonça.
Em nota, Toffoli afirmou que a venda da participação da Maridt no resort foi realizada a valor de mercado e que nunca recebeu valores de Vorcaro ou de Zettel, fortalecendo sua defesa em meio às investigações.
Ramificações e próximos passos
A decisão do colegiado também inclui a convocação de Martha Graeff, influenciadora e ex‑noiva de Vorcaro, para prestar esclarecimentos à CPI, com depoimento marcado ainda para a próxima semana. Um pedido para ouvir o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, foi rejeitado em votação.
A análise dos sigilos do fundo Arleen deve fornecer elementos que suplementem as investigações sobre o Banco Master e suas possíveis conexões com fundos de investimento, empresas de fachada e agentes públicos — uma rede que já motivou prisões e descobertas da Operação Compliance Zero.
O avanço dos trabalhos da CPI alinha‑se a uma tentativa de ampliar o alcance das apurações independentemente de limitações legais que têm sido impostas por decisões judiciais, alimentando um debate intenso sobre equilíbrio entre fiscalização parlamentar e garantias legais de sigilo.