Membros do governo dizem que ainda é cedo para avaliar se prisão do ex-presidente afeta relação com Trump
Marina Roveda Publicado em 05/08/2025, às 15h55
A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) nesta segunda-feira (4), repercutiu de forma negativa nos canais diplomáticos entre Brasil e Estados Unidos, especialmente diante das recentes tentativas do governo brasileiro de reverter o pacote de tarifas de 50% imposto por Donald Trump a produtos nacionais.
Desde o anúncio das tarifas, no dia 9 de julho, interlocutores brasileiros buscavam abrir diálogo com a administração norte-americana. A primeira sinalização positiva ocorreu na quarta-feira (30), quando o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, reuniu-se com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Três dias depois, Trump afirmou publicamente que Lula poderia “ligar a qualquer momento”, em gesto visto como tentativa de reaproximação.
Contudo, a ordem judicial que impôs prisão domiciliar a Bolsonaro gerou reação imediata do Departamento de Estado dos EUA. Em postagem oficial na rede X (antigo Twitter), o Escritório para o Hemisfério Ocidental afirmou: “Colocar ainda mais restrições à capacidade de Jair Bolsonaro se defender em público não é um serviço público. Deixem Bolsonaro falar!”. A nota finaliza com a promessa de responsabilizar “aqueles que ajudam e incentivam a conduta sancionada”.
A orientação do governo Lula, até o momento, tem sido manter discrição e evitar novos atritos que possam prejudicar as negociações comerciais. Uma fonte diplomática ouvida pela BBC News Brasil afirmou que ainda é cedo para medir o impacto da decisão judicial sobre os diálogos, mas reconheceu que os esforços de aproximação haviam ganhado tração nos dias anteriores à prisão de Bolsonaro.
No plano político, as tensões vêm se acumulando. Desde que Eduardo Bolsonaro, deputado federal licenciado, mudou-se para os EUA, ele tem defendido sanções diretas contra Moraes e o STF, e chegou a comemorar publicamente as tarifas impostas por Trump ao Brasil. A recente operação autorizada pelo ministro do STF em 18 de julho, com buscas na casa de Bolsonaro, intensificou esse cenário. Como resposta, os EUA revogaram vistos de ministros do Supremo, incluindo Moraes.
Trump, por sua vez, continua defendendo Bolsonaro. “Não é como se ele fosse meu amigo. É alguém que eu conheço”, afirmou. Ele mantém o discurso de que o ex-presidente brasileiro é vítima de perseguição judicial.
Segundo especialistas, o efeito prático da prisão pode variar. O professor Matias Spektor, da FGV-SP, aponta que, politicamente, o gesto tende a gerar mais pressão norte-americana. “Trump pode manter ou até mesmo ampliar sanções contra membros da Corte”, avalia.
Por outro lado, o conselheiro do CEBRI e professor de Harvard, Hussein Kalout, considera que o impacto sobre as tratativas comerciais deve ser limitado. “Os EUA vão agir com base no interesse econômico, não em questões judiciais envolvendo Bolsonaro.”
Entre os produtos brasileiros inicialmente ameaçados pelo tarifaço, quase 700 foram retirados da lista graças a um acordo parcial. A Câmara de Comércio Brasil-EUA (Amcham) estima que as exceções representem 42% do volume de exportações nacionais para os EUA.
Analistas como Jana Nelson, da Universidade Georgetown, concordam que a reação dos EUA pode não se intensificar. “Trump já considerava Bolsonaro vítima de judicialização. A decisão do STF apenas reforça essa narrativa”, afirma.
O governo brasileiro, no entanto, segue cauteloso. A estratégia, por ora, é manter os canais abertos e evitar protagonismo em temas que possam ser interpretados como interferência em assuntos internos dos EUA — ou vice-versa.