Segurança e privacidade

Câmara aprova projeto que libera comércios a divulgar imagens de pessoas cometendo crimes

Proposta amplia exceções à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) para permitir que estabelecimentos publiquem fotos e áudios de suspeitos flagrados em delitos, com restrições e exigência de boletim de ocorrência.

Câmara dos Deputados aprovou projeto que autoriza estabelecimentos a divulgar imagens de pessoas cometendo crimes - Imagem: Reprodução

Ana Beatriz Publicado em 18/03/2026, às 18h12

Ler resumo da notícia

A Câmara dos Deputados aprovou, na noite desta terça‑feira (17), um projeto de lei que autoriza comércios a divulgarem imagens e áudios de pessoas flagradas cometendo crimes dentro de suas dependências, alterando dispositivos da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A proposta, de autoria da deputada Bia Kicis (PL‑DF), agora segue para análise do Senado Federal, onde poderá ser debatida e possivelmente aprovada em definitivo.

O texto aprovado insere uma nova hipótese legal na legislação de proteção de dados, permitindo que estabelecimentos comerciais tornem públicas filmagens de suspeitos cometendo delitos, desde que tenha objetivo definido — como identificar o suspeito, alertar a população ou colaborar com as autoridades policiais. A proposta foi relatada pelo deputado Sanderson (PL‑RS), que destacou durante a votação que direitos como privacidade e proteção de dados não são absolutos e devem ser equilibrados com a proteção da sociedade.

De acordo com a proposta, a divulgação de imagens ou áudios só poderá ocorrer se for precedida de um boletim de ocorrência registrado pela vítima ou pelo comerciante, evitando que o conteúdo seja divulgado sem controle oficial. A medida busca dar respaldo jurídico a estabelecimentos que lidam frequentemente com furtos, roubos e outros delitos, e que, muitas vezes, já divulgam imagens para tentar localizar suspeitos ou prevenir novos crimes.

Entretanto, a matéria aprovada impõe restrições importantes para evitar exposições indevidas de pessoas que não tenham qualquer relação com o fato criminoso. O texto define que a divulgação deverá obedecer aos princípios de necessidade e proporcionalidade, mitigando riscos de violação de direitos fundamentais. O projeto também prevê sanções para quem divulgar conteúdo manipulado ou gerar imagens enganosas, abrindo espaço para punições em caso de uso indevido do novo dispositivo.

Durante a discussão na Câmara, o relator Sanderson argumentou que a alteração da LGPD era necessária para “oferecer um instrumento jurídico claro aos comerciantes” e evitar que regras de proteção de dados sejam utilizadas como “escudo para práticas ilícitas”. A deputada Bia Kicis, por sua vez, afirmou que a proposta pode contribuir para inibir crimes, sobretudo aqueles cometidos contra mulheres em ambientes como academias, lojas e restaurantes, defendendo que o comércio também tem papel na segurança pública.


Debate sobre privacidade e segurança

Especialistas em direito digital ouvidos por veículos de imprensa apontam que o tema é sensível e envolve a ponderação entre privacidade dos indivíduos e interesse coletivo pela segurança pública. A LGPD, em vigor desde 2020, já prevê hipóteses de tratamento de dados sem consentimento, como em casos necessários para cumprimento de obrigação legal ou exercício de direitos em processos judiciais. A nova proposta amplia ainda mais essas exceções, levantando debate sobre os limites da divulgação de informações pessoais em ambientes públicos privados.

Críticos afirmam que a medida pode abrir precedente para a exposição indevida de cidadãos, mesmo com restrições, e que mecanismos de controle eficazes serão fundamentais para evitar abusos. Organizações de defesa de direitos civis avaliam que a aprovação no Senado será decisiva para definir o campo de aplicação da lei, especialmente no que diz respeito à proteção de dados sensíveis.


O que muda com a aprovação

Se a proposta for confirmada pelo Senado e sancionada, o Brasil terá um dispositivo específico permitindo que estabelecimentos comerciais publiquem imagens e áudios de crimes sob as seguintes condições:

Com a aprovação na Câmara, a matéria segue agora para o Senado, onde será examinada por comissões temáticas — incluindo Constituição e Justiça — antes de ser levada ao plenário. Caso seja aprovada sem alterações, a proposta seguirá para sanção presidencial.

A tramitação no Senado é vista como decisiva, já que senadores poderão propor emendas que restrinjam ou ampliem ainda mais as condições de divulgação de imagens, além de trazer novas salvaguardas para evitar abusos.

Segurança projeto SENADO FEDERAL CRIMES BIA KICIS LEI DEPUTADOS SANÇÕES IMAGENS câmara comércios Filmações Delitos

Leia também