Integrantes do Departamento de Estado pretendiam viajar a Brasília antes das eleições de outubro. Autoridades brasileiras avaliaram que a missão poderia ser utilizada para enfraquecer a confiança no sistema eleitoral do país.
Ana Beatriz Silva Publicado em 25/07/2026, às 14h07
O governo brasileiro negou os pedidos de visto de dois integrantes da administração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que planejavam viajar ao Brasil para tratar do sistema eleitoral brasileiro. Segundo autoridades ouvidas pela Reuters, a visita poderia ser utilizada para colocar em dúvida a integridade das urnas eletrônicas antes das eleições presidenciais de outubro.
A missão foi revelada inicialmente pelo jornal norte-americano The Washington Post. A comitiva seria formada por Riley M. Barnes, secretário assistente do Bureau de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho do Departamento de Estado, e Samuel Samson, secretário assistente adjunto do órgão.
O Departamento de Estado chegou a confirmar ao jornal que os dois funcionários tinham uma viagem a Brasília prevista para a última semana de julho, mas não informou oficialmente o objetivo da visita nem quais autoridades seriam procuradas no Brasil.
Posteriormente, duas autoridades brasileiras afirmaram à Reuters que os pedidos de visto foram recusados na sexta-feira, 24 de julho. Segundo uma delas, havia indícios de uma nova tentativa de explorar politicamente o cenário brasileiro e enfraquecer a confiança no sistema eleitoral.
As fontes falaram sob condição de anonimato devido à sensibilidade diplomática do caso. Até a publicação das informações, o Departamento de Estado dos Estados Unidos não havia apresentado uma resposta pública sobre a negativa dos vistos.
Governo brasileiro temia relatório contra as urnas
De acordo com o The Washington Post, representantes do governo brasileiro suspeitavam que os funcionários norte-americanos pretendiam conversar com críticos das urnas eletrônicas e produzir um documento que pudesse ser usado para questionar a legitimidade das eleições brasileiras.
Diplomatas brasileiros teriam classificado a iniciativa como incompatível com a democracia e considerado medidas para impedir que a missão avançasse. A avaliação apresentada pelas autoridades é que uma ação conduzida por representantes de outro governo poderia ser interpretada como interferência no processo eleitoral brasileiro.
A movimentação ocorre a pouco mais de dois meses do primeiro turno das Eleições Gerais de 2026, marcado para 4 de outubro. Mais de 150 milhões de brasileiros estão aptos a participar da votação para presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais ou distritais.
Sistema está aberto para fiscalização
O Tribunal Superior Eleitoral afirma que os códigos fonte das urnas e dos demais sistemas utilizados nas eleições estão disponíveis para inspeção desde outubro de 2025. Mais de 15 instituições habilitadas, entre partidos políticos, Ministério Público, Congresso Nacional e entidades técnicas, podem fiscalizar os programas.
O sistema eleitoral também passa por testes públicos, cerimônias de assinatura digital, lacração dos programas e auditorias realizadas antes, durante e depois da votação. Em maio, o TSE concluiu uma nova etapa do Teste Público da Urna e informou que os procedimentos confirmaram a segurança dos sistemas preparados para as eleições de 2026.
As urnas eletrônicas não são conectadas à internet durante nenhuma etapa da votação. Ao final do processo, cada equipamento imprime um boletim de urna com os votos registrados naquela seção. Os partidos também podem obter arquivos utilizados para comparar a apuração oficial com contagens realizadas por programas próprios.
Informação falsa sobre a Smartmatic
O episódio também ocorre após novas discussões políticas envolvendo a origem das urnas brasileiras. Em um encontro com representantes diplomáticos, o senador Flávio Bolsonaro afirmou que os equipamentos brasileiros teriam sido produzidos pela empresa Smartmatic.
A informação é falsa. O TSE esclarece que a Smartmatic não fabrica as urnas eletrônicas brasileiras nem fornece os programas utilizados na votação. O projeto, o desenvolvimento e a administração do sistema eleitoral são conduzidos pela própria Justiça Eleitoral.
Flávio Bolsonaro declarou que não estava questionando diretamente a integridade do sistema, mas defendeu que governos estrangeiros enviem observadores para acompanhar as eleições. A Justiça Eleitoral já apresenta os mecanismos de segurança do processo a representantes diplomáticos e permite a participação de instituições fiscalizadoras nas diferentes etapas de auditoria.
A negativa dos vistos amplia a tensão diplomática entre Brasília e Washington e transforma a segurança das urnas em mais um ponto de atrito entre os governos brasileiro e norte-americano. O episódio deverá permanecer no centro do debate político conforme o país se aproxima da eleição presidencial.