Com reservatórios em queda e previsão de chuvas abaixo da média, Sabesp amplia redução da pressão da água em São Paulo e intensifica impacto no abastecimento
Manoela Cardozo Publicado em 22/09/2025, às 11h29
A Sabesp iniciou nesta segunda-feira (22) uma nova fase da redução de pressão da água na Grande São Paulo. O período passou de oito para dez horas diárias, entre 19h e 5h. Segundo a companhia, a medida é temporária e tem como principal objetivo economizar recursos diante do baixo nível dos reservatórios.
Até então, desde segunda-feira (27) de agosto, o ajuste vinha sendo feito das 21h às 5h. O procedimento atende à recomendação da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp), que monitora os sistemas de abastecimento. O risco é maior para casas em bairros afastados ou em regiões mais altas, onde a água pode faltar totalmente durante a noite.
Em comunicado, a Sabesp afirmou que a ação é preventiva e visa evitar maiores perdas na rede de distribuição. “A Sabesp ressalta que imóveis que possuem suas instalações conectadas à caixa-d'água devem sentir menos os efeitos da redução de pressão e lembra ainda a importância do uso consciente da água por toda a população”, destacou a empresa.
Segundo a companhia, a primeira etapa da medida já havia conseguido economizar um volume equivalente ao abastecimento de mais de 800 mil pessoas durante um mês. De acordo com o governo paulista, o corte inicial, que começou em agosto, garantiu uma economia de 4,2 m³/s. “A medida evitou uma queda maior do nível dos mananciais. No entanto, diante dos eventos climáticos e cenário de chuvas abaixo do esperado, foi preciso ampliar o período para a recuperação dos reservatórios”, informou o governo.
Dados divulgados na sexta-feira (20) pelo Comitê de Integração das Agências para a Segurança Hídrica mostraram que o sistema que abastece a região metropolitana operava com apenas 32,8% do volume útil, índice 7,7 pontos inferior ao registrado em 2021. Os sistemas Cantareira e Alto Tietê, que respondem por 80% da capacidade total, estavam em 30,3% e 26,1%, respectivamente.
O diretor-presidente da Arsesp, Thiago Mesquita Nunes, explicou que a estratégia é semelhante à usada em crises anteriores. “Durante o período noturno, o usuário pode perceber uma falta de água na sua torneira, mas ela deve voltar no início da manhã”, disse.
Para muitos moradores, o impacto é imediato. A aposentada Teresa Godois, do Itaim Paulista, relatou dificuldades: “Faz um bom tempo que as pessoas estão sempre reclamando. Para nós, a noite é uma falta de água bem grande, especialmente para quem tem parentes doentes em casa, é complicado”.
O técnico em edificações Paulo Roberto também reclama da instabilidade no fornecimento. “Todos os dias eu chego por volta das 22h30, e a água encerra literalmente, ela vai gradativa e zera. Passa esse período e só no dia seguinte, por volta das 4h30, ela retorna. Se esse período de seis horas já perdura, imagina se acontece durante oito horas? São duas horas a mais de ausência de água. É isso que nos perturba”, afirmou.
A Sabesp lembra que a redução da pressão diminui o desperdício em vazamentos subterrâneos ainda não identificados. Especialistas explicam que, quando a pressão cai, o volume perdido também é menor.
O regime de chuvas da região metropolitana ajuda a entender a gravidade da situação. O período entre outubro e março concentra quase toda a reposição de água dos reservatórios. Já entre abril e setembro, a quantidade de chuva é pequena, o que torna o estoque insuficiente quando a estação anterior é fraca. Nos últimos dois anos, os períodos chuvosos não foram suficientes para recuperar os níveis.
Na estiagem de 2024, os reservatórios chegaram a perder 617 milhões de litros. As chuvas seguintes repuseram apenas 177 milhões. Em 2025, o cenário é ainda mais crítico: já foram perdidos 380 milhões de litros, e a seca ainda não terminou.