A presidente da Comissão Europeia sugere garantias de segurança semelhantes ao Artigo 5 da Otan para proteger a Ucrânia
Gabriela Thier Publicado em 19/08/2025, às 15h30
Nesta segunda-feira (19), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ofereceu esclarecimentos sobre a partilha das regiões ucranianas ocupadas pela Rússia após um encontro em Washington com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e diversas lideranças europeias.
Em uma entrevista concedida à rede Fox News, Trump comentou que a Ucrânia ficaria "com muito território", embora não tenha especificado quais áreas seriam mantidas sob controle ucraniano, referindo-se às regiões atualmente sob domínio russo.
Zelensky, por sua vez, reafirmou sua posição intransigente de não aceitar negociações sobre os territórios ucranianos com Moscou.
Durante a mesma entrevista, Trump expressou incertezas quanto ao desejo do presidente russo, Vladimir Putin, de chegar a um acordo de paz. Ele mencionou que será possível avaliar essa disposição nas próximas semanas. "Putin está cansado dessa guerra. Mas precisamos descobrir mais sobre suas intenções nas próximas semanas... É possível que ele não esteja disposto a fechar um acordo", declarou o líder americano. Ele ainda indicou que a Rússia poderia enfrentar dificuldades caso não haja um entendimento.
Em relação às garantias solicitadas pelos líderes europeus para assegurar que a Ucrânia não enfrente novos ataques após o conflito, Trump comentou que haveria algum tipo de segurança proposta, mas que isso não seria nos moldes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que participou do encontro em Washington, sugeriu que as garantias de segurança se assemelhassem ao Artigo 5 da Otan, que prevê intervenções em caso de ataques a membros da aliança.
Por outro lado, a Rússia sinalizou a possibilidade de um encontro entre Zelensky e Putin. O chanceler russo, Sergei Lavrov, afirmou que o país está aberto a discutir o processo de paz na Ucrânia.
Trump anunciou planos para uma reunião trilateral entre ele mesmo, Zelensky e Putin em uma data e local ainda indefinidos. Lavrov também insinuou que Moscou poderia considerar abrir mão de algumas áreas ocupadas na Ucrânia, enfatizando que a Rússia nunca buscou apenas territórios.
Zelensky declarou que seu governo já iniciou o desenvolvimento dos termos para garantir segurança à Ucrânia no âmbito de uma proposta de paz. "Haverá garantias de segurança", assegurou.
Trump teve uma conversa com Putin no dia anterior à reunião e o assessor do Kremlin, Yuri Ushakov, caracterizou essa ligação como "franca e construtiva". Contudo, ele se referiu ao potencial encontro entre os líderes como uma mera "ideia", mencionando a possibilidade de aumentar o nível das representações ucranianas e russas nas negociações diretas.
Enquanto Trump manifestava otimismo sobre o desfecho do conflito na Ucrânia, Zelensky e os líderes europeus reiteravam a necessidade de robustas garantias para evitar novas invasões russas no futuro. Ao final do encontro em Washington, todos os participantes expressaram satisfação com os diálogos realizados.
Em suas redes sociais, Trump afirmou: "Durante o encontro discutimos as garantias de segurança para a Ucrânia que serão fornecidas por diversos países europeus em coordenação com os Estados Unidos. Todos estão muito otimistas com a possibilidade de PAZ entre Rússia e Ucrânia".
Zelensky relatou ter mantido uma longa conversa sobre questões territoriais com Trump e indicou que detalhes acerca das garantias oferecidas pelos EUA devem ser acordados nos próximos dez dias. O presidente ucraniano classificou a reunião como "a melhor até agora" e reiterou sua disposição para encontrar-se com Putin sem condições prévias.
O encontro na Casa Branca ocorreu três dias após um encontro anterior entre Trump e Putin na Alasca. O premiê britânico Keir Starmer sublinhou: "A segurança da Ucrânia é a segurança da Europa".
Dentre os líderes europeus presentes estavam Emmanuel Macron (França), Keir Starmer (Reino Unido), Friedrich Merz (Alemanha), Ursula von der Leyen (Comissão Europeia), Mark Rutte (Otan), Giorgia Meloni (Itália) e Alexander Stubb (Finlândia).
Trump qualificou o dia como muito exitoso e expressou acreditar que Putin deseja a paz. Contudo, Macron e Stubb alertaram para a falta de confiabilidade do líder russo em suas promessas de paz.
O presidente dos EUA manifestou interesse em realizar a reunião trilateral rapidamente, com expectativas de que aconteça até o final de agosto. A fonte da Casa Branca informou ao site Axios que Merz mencionou um possível encontro entre Putin e Zelensky dentro de duas semanas.
Macron e Merz fizeram apelos por um cessar-fogo imediato no conflito. O presidente francês alertou Trump sobre as implicações continentais das negociações para pôr fim à guerra na Ucrânia e pediu que os líderes europeus fossem incluídos na cúpula tripartite proposta pelo americano.
A primeira-ministra italiana Meloni destacou que uma questão crucial neste momento é como garantir que futuras invasões russas não ocorram novamente como condição fundamental para qualquer acordo pacífico.
O clima do encontro desta segunda-feira foi consideravelmente mais ameno em comparação ao anterior, realizado em 28 de fevereiro, quando houve confrontos verbais entre Zelensky e os anfitriões. Durante este último encontro, todos adotaram um tom mais conciliador apesar das diferenças ainda presentes. Um repórter elogiou Zelensky por seu traje formal durante sua presença no Salão Oval.
No contexto das propostas para encerrar a guerra, um rascunho sugerido por Putin envolve uma retirada parcial das tropas russas do norte da Ucrânia, mas impõe contrapartidas inaceitáveis para Kiev: reconhecimento da anexação da Crimeia, manutenção do controle russo sobre partes significativas do Donbas e garantias contra a adesão da Ucrânia à Otan.
Diplomatas observam que tal esboço não constitui um acordo formal; todavia, representa os esforços russos para consolidar conquistas militares desde 2022. Para Zelensky, qualquer concessão desse tipo significaria abrir mão da soberania nacional.
Recentemente, Zelensky admitiu em Bruxelas que poderia considerar negociar sobre as terras já dominadas pelas forças russas. O secretário-geral da Otan também reconheceu que Kiev provavelmente terá que aceitar perdas territoriais na prática mesmo sem um reconhecimento formal dessa situação no cenário jurídico internacional.
No entanto, Putin continua caracterizando Zelensky como ilegítimo. A comunidade diplomática europeia expressa incertezas quanto à real disposição do líder russo em sentar-se à mesa com o presidente ucraniano ou se ele preferirá adiar as negociações enquanto consolida suas vantagens militares.