Decisões americanas, como os ataques ao Irã, mostram como a política interna pode provocar instabilidade global
Marcus Vinícius de Freitas Publicado em 15/07/2026, às 08h00
Quando Donald Trump regressou à Casa Branca em janeiro de 2025, seus apoiadores acreditavam estar restaurando a previsibilidade. Depois de anos marcados pela polarização política e críticas à administração Biden, a promessa era reafirmar a liderança internacional dos Estados Unidos. Poucos meses depois, porém, ficou evidente que a questão nunca foi Donald Trump. Trump é apenas o sintoma. O verdadeiro problema é que o sistema internacional se tornou perigosamente dependente das decisões tomadas em uma única capital.
Durante décadas, analistas discutiram os riscos da ascensão da China, do revisionismo russo, da proliferação nuclear e do terrorismo internacional. Mas talvez o maior risco estratégico do século XXI seja outro: a concentração do risco político global em Washington. Hoje, uma única decisão presidencial americana pode alterar o preço da energia, reorganizar cadeias globais de abastecimento, modificar fluxos de investimento, abalar alianças militares, afetar moedas, provocar deslocamentos populacionais e redefinir expectativas econômicas em praticamente todos os continentes. Nenhuma arquitetura internacional deveria ser tão vulnerável às decisões de um único governo.
Os acontecimentos recentes apenas ilustram esse problema. Os ataques americanos às instalações nucleares iranianas produziram efeitos muito além do teatro militar. Aumentaram a volatilidade dos mercados energéticos, reacenderam temores quanto à estabilidade do Oriente Médio e obrigaram governos em todos os continentes a rever suas avaliações estratégicas. Independentemente da opinião que se tenha sobre o programa nuclear iraniano, uma pergunta permanece inevitável: é saudável que decisões capazes de afetar bilhões de pessoas dependam quase exclusivamente da avaliação política de uma única administração nacional?
O genocídio em Gaza revelou outra dimensão da mesma fragilidade. O firme apoio de Washington ao governo israelense e sua resistência em responder às críticas formuladas por organismos internacionais aprofundaram uma percepção que já vinha crescendo em grande parte do Sul Global: a de que princípios universais passaram a ser aplicados de maneira seletiva. O resultado foi a erosão da credibilidade política do Ocidente, que dificilmente será revertida apenas com mudanças de governo. O problema não está apenas nas decisões. É na própria arquitetura que se permite que essas decisões produzam consequências tão amplas.
Durante mais de sete décadas, essa concentração parecia razoável. Os Estados Unidos ofereciam aquilo que nenhuma outra potência conseguia garantir simultaneamente: capacidade econômica, poder militar e estabilidade institucional. A previsibilidade americana tornou-se um bem público internacional. Mercados confiavam nela. Os governos organizavam suas políticas externas em torno dela. Empresas investiam supondo sua continuidade. Essa foi uma das maiores contribuições americanas para a ordem internacional do pós-guerra. Hoje, entretanto, essa previsibilidade deixou de ser garantida.
A crescente polarização política dos Estados Unidos transformou as mudanças eleitorais em potenciais eventos sistêmicos. Cada eleição presidencial passou a representar não apenas uma escolha doméstica dos eleitores americanos, mas também um momento de incerteza para toda a economia mundial. Esse talvez seja o maior paradoxo do século XXI. Nunca o mundo foi tão multipolar economicamente, nem esteve tão dependente das decisões políticas de uma única capital.
Defensores da atual administração argumentam que a imprevisibilidade constitui uma ferramenta legítima de dissuasão. Há racionalidade nessa ideia quando observada do ponto de vista tático. Em determinadas circunstâncias, a incerteza pode dificultar o cálculo dos adversários. Mas a estabilidade internacional não é construída apenas com tática. Ela depende de confiança, regras, instituições e da capacidade de governos, empresas e sociedades de planejar o futuro com um grau mínimo de previsibilidade. Quando essa previsibilidade desaparece, parte da confiança que sustenta a economia internacional também desaparece.
É precisamente por isso que o debate não deveria concentrar-se no próximo ocupante da Casa Branca. A questão central é outra: o sistema internacional tornou-se excessivamente centralizado. Essa centralização converteu a política doméstica americana em um fator permanente de risco global. Nenhuma ordem internacional madura deveria funcionar assim.
Em suma, trata-se de construir um mundo em que mudanças políticas em qualquer país - inclusive nos Estados Unidos - deixem de produzir ondas de choque capazes de afetar bilhões de pessoas. Os grandes impérios do passado acreditavam que o mundo dependia deles. O desafio do século XXI é exatamente o contrário: construir uma ordem internacional suficientemente sólida para que o futuro da humanidade deixe de depender das decisões de uma única capital. Essa insanidade precisa terminar.