COLUNA

Postura: A Coluna Invisível da Política

Na política, o termo trata-se, essencialmente, de honrar o cargo - Imagem gerada por IA

Marcus Vinícius De Freitas Publicado em 11/06/2025, às 09h18

A palavra postura carrega em si não apenas a ideia da maneira como o corpo se apresenta ao mundo, mas, sobretudo, o modo como a alma se estrutura diante das responsabilidades que lhe são confiadas. Na política, essa postura transcende o indivíduo: trata-se, essencialmente, de honrar o cargo, não a pessoa. O respeito devido às instituições repousa nessa distinção fundamental. A liturgia do cargo existe não como artifício teatral, mas como salvaguarda da respeitabilidade do Estado. É justamente por meio da formalidade, do protocolo e da compostura que a figura pública se distancia da trivialidade cotidiana e se transforma em símbolo de continuidade, estabilidade e previsibilidade.

O colapso das monarquias constituiu, entre outras coisas, a ruptura dessa simbologia. Se por um lado a democratização abriu portas à participação popular, por outro permitiu que a lógica do voto suplantasse a lógica do dever de Estado. Em nome da representatividade, entregou-se o timão da nação a mãos despreparadas, mais treinadas na arte da sedução eleitoral do que na ciência da administração pública. Nesse novo paradigma, o político não mais se compreende como encarnação transitória da institucionalidade, mas como extensão da vontade de seus eleitores — por vezes ruidosos, frequentemente desinformados e quase sempre movidos por interesses imediatos.

A consequência disso é a diluição da postura. Abandonaram-se os ritos, os protocolos e os códigos não escritos que garantiam ao cargo uma aura de respeitabilidade. Não por acaso, assiste-se hoje a uma crescente vulgarização da política. A indumentária se torna displicente, a retórica descamba para o populismo, e o palco da vida pública se confunde perigosamente com o das redes sociais. Aquilo que antes era sagrado — o exercício da função pública — tornou-se um espetáculo de vaidades.

No Brasil, o quadro se agrava por razões históricas específicas. Embora tenhamos tido uma monarquia constitucional por mais de meio século, os títulos nobiliárquicos concedidos pelo Império não eram hereditários. Por decisão consciente de Dom Pedro I e reafirmada por Dom Pedro II, a nobreza brasileira foi pensada como uma ordem honorífica e funcional, voltada ao mérito e à prestação de serviços ao Estado. A hereditariedade foi evitada como forma de impedir o surgimento de oligarquias regionais e feudos autônomos, numa tentativa de manter o poder centralizado no Imperador. Tal escolha, embora compreensível no contexto da formação do Estado nacional, teve um efeito colateral duradouro: impediu o surgimento de uma elite estável, estruturada, com ethos de serviço à pátria e preocupação com a perenidade institucional.

Com a Proclamação da República, extinguiram-se os títulos e não restou qualquer herança institucional sólida de uma aristocracia civil. Em seu lugar, floresceu uma elite improvisada, muitas vezes mais comprometida com o lucro imediato do que com o desenvolvimento da nação. E com ela, instalou-se uma ética distorcida, centrada no ganho fácil, no clientelismo e no desprezo pelas exigências da função pública.

Importa ressaltar, contudo, que a perda da postura e da compostura não é um fenômeno exclusivo do Brasil. Em várias partes do mundo, na tentativa de aproximar o poder da população e de “humanizar” o Estado, houve uma erosão do próprio respeito à figura institucional. O excesso de informalidade — muitas vezes travestido de empatia — abriu espaço para o abuso, a banalização do cargo e o esvaziamento da liturgia de Estado. O caso norte-americano é exemplar: o escândalo sexual ocorrido no Salão Oval da Casa Branca durante o governo Clinton comprometeu a aura simbólica da Presidência dos Estados Unidos. Afinal, espera-se que o chefe de Estado — e sobretudo o chefe de uma superpotência — se comporte com um grau de elevação moral e institucional superior à média. Quando isso falha, o símbolo se quebra.

É justamente diante desse quadro que emerge um dos argumentos mais robustos em defesa das monarquias constitucionais: a presença de um representante do povo que, não sendo eleito, representa o todo nacional com neutralidade institucional e continuidade simbólica. A função do monarca moderno, em muitos casos, não é governar, mas assegurar que haja um ponto de equilíbrio protocolar que, por sua permanência e estabilidade, instrua os políticos — transitórios e mutáveis — quanto aos limites e deveres da função pública. Sim, haverá falhas até mesmo nas casas reais. Mas, diante da degradação política a que assistimos em boa parte dos regimes republicanos presidencialistas, com seus ciclos curtos e seus líderes midiáticos, há uma lição a ser considerada.

É claro que deve haver representatividade popular nos órgãos públicos — esta é, afinal, a essência da democracia. Mas representatividade não pode ser confundida com qualificação. Ter votos não é sinônimo de ter visão. Liderar exige mais do que empatia: exige competência técnica, estofo intelectual e, acima de tudo, postura. A política não pode ser espelho da totalidade do povo em suas falhas, mas deve ser farol — isto é, um guia, uma aspiração ao melhor que podemos ser.

democracia PROTOCOLO REPRESENTATIVIDADE POSTURA Política populismo liturgia institucionalidade nobreza

Leia também