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O Brasil e a Geopolítica do Ciberespaço

O Brasil e a Geopolítica do Ciberespaço - Imagem gerada por IA

Marcus Vinícius De Freitas Publicado em 02/07/2025, às 09h34

No século XXI, quem controla os dados, controla o poder. A era digital não apenas transformou a economia global — ela redefiniu os fundamentos da soberania, da segurança e da autonomia nacional. No entanto, enquanto as grandes potências do Norte Global disputam ferozmente a primazia tecnológica, o Sul Global permanece, em muitos casos, inerte ou capturado por uma lógica de dependência digital que perpetua as assimetrias do passado sob roupagem moderna.

Vivemos sob o jugo de um novo colonialismo — o colonialismo de dados. As maiores plataformas digitais do mundo, concentradas nos Estados Unidos, extraem dados de bilhões de usuários sem qualquer redistribuição ou compensação justa do valor gerado. Esses dados, convertidos em algoritmos, inteligência artificial e influência política, tornam-se instrumentos de modelagem de comportamento, manipulação eleitoral e controle invisível. Somos explorados não por aquilo que temos embaixo da terra, mas por aquilo que carregamos no bolso, clicamos na tela e revelamos sem perceber.

É nesse cenário que o BRICS emerge como uma das poucas alternativas críveis à ordem digital unipolar. A expansão do grupo — que hoje já inclui potências tecnológicas emergentes como China, Índia e, potencialmente, a adesão de países com vocações digitais no Sul Global — pode e deve tornar-se um eixo de articulação para uma nova governança da internet, que promova soberania informacional, proteção de dados e inovação sob critérios de justiça e pluralidade cultural. Trata-se de um esforço civilizacional e estratégico que precisa ser intensificado, com ambição e coesão.

O Brasil, no entanto, permanece adormecido frente a esse debate. Apesar de contar com uma das maiores populações conectadas do planeta, o país segue como mero consumidor passivo de plataformas estrangeiras, com marcos regulatórios frágeis, políticas digitais erráticas e pouquíssimo protagonismo em fóruns internacionais. A letargia brasileira nessa arena é incompatível com sua ambição de ser um ator relevante no sistema internacional. Não há futuro de grandeza possível para uma nação que abdica da soberania sobre seus dados. O país parece assistir de camarote à consolidação de uma ordem digital excludente, sem perceber que o ingresso tardio nessa disputa poderá significar décadas de dependência e irrelevância.

É preciso uma guinada urgente e estratégica. O Brasil precisa abandonar a discussão inútil da regulamentação ideológica da internet, mas reconhecer que a soberania digital não é um luxo acadêmico — é uma condição de existência soberana no século XXI. Isso exige investimento em infraestrutura nacional de dados, incentivo à inovação tecnológica local por meio de isenção tributária, fortalecimento de órgãos reguladores independentes e uma diplomacia ativa que insira o país na vanguarda do debate internacional sobre governança digital.

Mais que isso: o Brasil precisa assumir um papel de liderança dentro do BRICS na articulação de uma ordem digital alternativa. Ao invés de reproduzir o isolamento de um modelo ocidental em crise, o País deve abraçar o potencial transformador de uma aliança entre os países do Sul Global — uma aliança que promova um ciberespaço multipolar, seguro, inclusivo e respeitador da diversidade de modelos de desenvolvimento. Esse posicionamento é não apenas possível, mas urgente, especialmente diante das rápidas transformações impostas pela inteligência artificial e pela centralização de infraestrutura computacional.

A alternativa é clara: ou participamos ativamente da construção de uma ordem digital justa — ancorada em valores de equidade, soberania e justiça informacional — ou seremos eternamente subjugados por arquiteturas invisíveis que moldam nosso comportamento, nossa economia e, em última instância, nosso destino coletivo. Que não repitamos o erro político imposto ao Brasil pelo governo Bolsonaro, que transformou o 5G numa discussão política inútil e condenou o País a mais um atraso tecnológico.

A soberania digital será o grande divisor de águas entre as nações que comandarão o futuro e aquelas que continuarão a mendigar por espaço no banquete tecnológico global. O Brasil precisa decidir — e rápido — de que lado da história quer estar.

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