A luta da Ucrânia pela sobrevivência se transforma em uma questão de ética e estratégia, questionando o futuro da política em tempos de guerra
Marcus Vinícius de Freitas Publicado em 01/04/2026, às 08h00
Em tempos de guerra, a fronteira entre necessidade e oportunidade torna-se perigosamente
difusa. A Ucrânia, sob a liderança de Volodymyr Zelensky, tem sido celebrada — com razão —
pela sua resiliência diante da agressão russa. No entanto, à medida que o conflito se prolonga,
emerge uma dimensão menos discutida, mas profundamente reveladora e surpreendente: a
transformação da guerra em ativo exportável.
A recente aproximação de Zelensky com países do Golfo, envolvendo a oferta de tecnologias
de defesa, sistemas antidrones e, sobretudo, conhecimento operacional adquirido em
combate real, representa mais do que uma estratégia de diversificação diplomática. Trata-se
de um movimento que levanta questões fundamentais sobre os limites éticos e estratégicos
da sobrevivência em contextos de guerra.
Zelensky parece ter compreendido algo essencial sobre o século XXI: conflitos não são apenas
arenas de destruição — são também espaços de produção de valor e de ganho econômico. A
guerra na Ucrânia tornou-se, assim, uma espécie de laboratório em tempo real, cujo
“produto” não é apenas militar, mas também político e econômico. Exportar esse
conhecimento para o Golfo é, nesse sentido, uma tentativa de converter sofrimento em
capital estratégico.
Mas é precisamente aqui que reside o problema. Ao transformar a experiência da guerra em
commodity, a Ucrânia arrisca deslocar-se de uma posição moralmente elevada — a de vítima
de agressão — para uma postura mais ambígua, na qual a guerra deixa de ser apenas uma
tragédia a ser superada e passa a ser também um recurso a ser explorado. A linha que separa
resiliência de instrumentalização torna-se, assim, cada vez mais tênue.
Há, evidentemente, uma lógica pragmática. Kiev necessita de financiamento, de aliados e de
relevância contínua num sistema internacional marcado pela volatilidade e pela fadiga
política. A instabilidade de Trump na questão do financiamento à guerra também gera
inúmeras incertezas para a Ucrânia. Os países do Golfo, por sua vez, enfrentam ameaças
concretas — em particular no domínio dos drones e da guerra assimétrica — e veem na
experiência ucraniana um ativo valioso. A convergência de interesses é, portanto, real.
No entanto, essa convergência é também reveladora de uma mudança mais profunda: a
guerra deixou de ser um evento extraordinário para se tornar um ecossistema transacionável.
E quando a guerra entra na lógica de mercado, o risco não é apenas a sua perpetuação, mas a
sua normalização.
Para os aliados ocidentais da Ucrânia, esta dinâmica não é isenta de desconforto. Como
justificar o apoio contínuo a um país que, simultaneamente, comercializa capacidades
militares derivadas de um conflito ainda em curso? Como sustentar a narrativa de
solidariedade quando esta começa a coexistir com uma lógica de mercado? A resposta, até
agora, tem sido o silêncio — um silêncio que revela mais do que resolve
Do ponto de vista estratégico, a manobra de Zelensky é sofisticada. Ao inserir a Ucrânia em
redes de segurança para além da OTAN, ele amplia o espaço de manobra do país e reduz a sua
dependência exclusiva do Ocidente. No entanto, essa mesma sofisticação pode conter as
sementes de um erro de cálculo: ao multiplicar vínculos e interesses, Kiev pode diluir a clareza
moral que sustentou o seu apoio internacional desde o início do conflito.
A história oferece precedentes desconfortáveis. Estados que transformaram a guerra em
instrumento econômico raramente conseguiram controlar as consequências dessa escolha. O
que começa como estratégia de sobrevivência pode evoluir para dependência estrutural de
um estado de conflito permanente.
Zelensky não está apenas liderando um país em guerra. Está, cada vez mais, moldando um
modelo de atuação em que a guerra se torna parte integrante da inserção internacional de um
Estado. E isso, embora compreensível no curto prazo, levanta uma questão inquietante para o
longo prazo: quando a guerra deixa de ser apenas um meio e passa a ser também um fim, o
que resta da política?
A Ucrânia luta, legitimamente, pela sua sobrevivência. Mas ao comercializar a sua experiência
de guerra, corre o risco de transformar essa luta em algo mais — e, talvez, em algo menos. Faz
sentido à Ucrânia ganhar com a guerra no Golfo? O quanto isso lhe diluirá a autoridade moral
é uma dúvida que somente o tempo responderá. A guerra, infelizmente, parece oferecer mais
recursos e ganhos econômicos do que a paz.