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A ONU e a Tempestade do Nosso Tempo

A ONU e a Tempestade do Nosso Tempo - Imagem: Reprodução

Marcus Vinicius De Freitas Publicado em 11/03/2026, às 09h45

Há épocas em que o maior risco para a ordem internacional não decorre apenas da existência de guerras, mas da erosão silenciosa dos mecanismos criados para impedi-las. O perigo não surge somente dos canhões, das sanções ou das ameaças explícitas, mas do enfraquecimento progressivo da ideia de que a política entre as nações deve ser mediada por regras, instituições e contenções recíprocas. É precisamente nesses momentos — quando a força volta a seduzir e a impaciência estratégica se disfarça de realismo — que a utilidade histórica das instituições multilaterais se torna mais evidente.

Nada seria mais equivocado, portanto, do que considerar a Organização das Nações Unidas (ONU) uma peça decorativa de uma era ultrapassada. A ONU nunca foi concebida para tempos tranquilos. Ela nasceu justamente quando a ordem internacional havia fracassado de forma catastrófica. Os arquitetos de 1945 compreenderam que o mundo não precisava de um parlamento utópico da humanidade, mas de algo muito mais pragmático: um mecanismo institucional capaz de conter rivalidades entre potências antes que elas escapassem ao controle da diplomacia.

Diplomacia, afinal, não consiste em conversar com amigos. Diplomacia é a arte difícil — e frequentemente ingrata — de manter diálogo com aqueles com quem discordamos profundamente.

O sistema internacional atravessa hoje um desses períodos de transição que testam a solidez das instituições. As certezas que marcaram o pós-Guerra Fria se dissolveram. Novos polos de poder emergem no Sul Global. A competição estratégica entre Washington e Beijing redefine equilíbrios globais. Conflitos indiretos voltam a proliferar em diferentes regiões. Ao mesmo tempo, transformações tecnológicas e pressões econômicas ampliam a sensação de instabilidade.

Em momentos como este, cresce a tentação de abandonar as instituições multilaterais e substituí-las por alianças improvisadas, coalizões ad hoc ou simplesmente pela ação unilateral das grandes potências.

A história, contudo, oferece um aviso severo. A Liga das Nações não fracassou porque era imperfeita — todas as instituições humanas o são. Ela fracassou porque as grandes potências passaram a tratá-la como opcional. Quando as regras deixam de ser percebidas como obrigatórias, a ordem internacional se converte rapidamente em um campo de competição sem limites.

Foi precisamente para evitar esse destino que a ONU foi criada. Mesmo quando parece paralisado, o sistema das Nações Unidas continua funcionando como um amortecedor das tensões internacionais. O Conselho de Segurança pode ver-se bloqueado por vetos em crises como as da Ucrânia ou do Oriente Médio. Ainda assim, a Assembleia Geral permanece como o fórum em que a maioria das nações do mundo registra sua posição coletiva, enquanto a rede de agências e mediadores da ONU trabalha silenciosamente para evitar escaladas ainda mais perigosas.

Curiosamente, os debates sobre a reforma do Conselho de Segurança — tantas vezes apresentados como prova da obsolescência da organização — revelam exatamente o contrário. O crescente clamor por maior representação da África, da América Latina e de outras regiões demonstra não a perda de relevância da ONU, mas sua centralidade contínua.

As potências emergentes não desejam destruir a instituição. Desejam sentar-se à mesa. E não serem somente um dos itens do cardápio.

Para o Sul Global, a ONU continua sendo o principal espaço em que influência internacional pode ser exercida sem coerção. É ali que países médios e pequenos preservam voz na definição de normas globais e na coordenação de respostas a desafios que nenhum Estado pode enfrentar sozinho — das pandemias às mudanças climáticas.

Os críticos mais apressados confundem paralisia tática com irrelevância estratégica. A arquitetura institucional de 1945 certamente range sob o peso do século XXI. A pergunta decisiva, contudo, permanece: qual seria a alternativa? Por acaso seria o fiasco da Junta da Paz do atual ocupante da Casa Branca?

Sem o sistema das Nações Unidas, a gestão das crises globais rapidamente se fragmentaria em agendas nacionais concorrentes, nas quais o poder — e apenas o poder — passaria a determinar os resultados.

A ONU, portanto, não deve ser compreendida como um farol que conduz a humanidade a uma utopia distante. Ela é algo mais modesto — e infinitamente mais necessário.

A ONU é um porto. Nações podem competir, desconfiar umas das outras e disputar influência. Mas, quando o mar geopolítico se torna turbulento, é o porto que permite atracar, reparar danos e, sobretudo, continuar conversando.

Num mundo novamente marcado por rivalidades estratégicas e incertezas sistêmicas, preservar esse porto não é um gesto de idealismo. É um imperativo de sobrevivência da própria ordem internacional.

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