Marcus Vinícius De Freitas Publicado em 26/02/2025, às 08h53
A construção de uma nacionalidade sólida e coesa é um processo complexo que envolve a formação de uma identidade comum, o fortalecimento dos valores culturais e históricos e a valorização das conquistas de um país. No caso do Brasil, essa construção tem sido marcada por avanços e retrocessos, muitos influenciados pela forma como o país enxerga a si mesmo e é retratado internamente.
Ao assistir recentemente à programação televisiva brasileira, fiquei impressionado com dois aspectos que refletem diretamente esse problema. Primeiro, a falta de conhecimento da população sobre a história do Brasil, um passado repleto de momentos gloriosos que moldaram a nação e que deveriam ser mais reconhecidos e cultuados. Segundo, a predominância de uma narrativa negativa nos meios de comunicação, que enfatiza a criminalidade, a violência e os problemas estruturais, mas ignora os inúmeros avanços e conquistas do País em diversas áreas.
Confúcio, o grande pensador chinês, dizia que “para saber para onde ir, é preciso saber de onde viemos.” Sua filosofia enfatiza a importância da tradição, da educação e da harmonia social para o desenvolvimento de uma civilização forte. O Brasil, ao negligenciar sua própria história e se concentrar em discursos de fracasso, impede a construção de uma nacionalidade sólida. Inspirando-se nos princípios confucianos, o país deve buscar a valorização de sua trajetória e a promoção de um senso de identidade coletiva.
Uma nação se constrói sobre a base de sua história. O Brasil tem uma trajetória rica, marcada por feitos extraordinários, como a independência pacífica, a construção de um Estado nacional coeso em um território vasto e a abolição da escravidão sem guerras civis prolongadas. No entanto, a falta de uma educação histórica robusta impede que os brasileiros compreendam e valorizem esses marcos. Países desenvolvidos investem na construção de uma narrativa nacional positiva, enquanto o Brasil frequentemente subestima sua própria trajetória, levando à alienação da população em relação à sua identidade.
Uma identidade nacional forte requer o reconhecimento das realizações do país. O Brasil é uma potência em diversas áreas, como agricultura, biotecnologia e energia renovável. É o maior exportador mundial de soja e carne bovina, tem um dos programas de biocombustíveis mais avançados do mundo e lidera pesquisas em imunologia e vacinas, como demonstrado na pandemia de COVID-19. No entanto, esses avanços raramente são destacados no discurso público, o que contribui para a perpetuação da ideia de que o Brasil é um país sem perspectivas. Essa reflexão se aplica à forma como o Brasil se enxerga: em vez de apenas criticar suas falhas, o país deveria reconhecer seus acertos e aprender com suas experiências.
A construção de uma nacionalidade exige um senso de pertencimento e união. No Brasil, porém, há uma fragmentação preocupante entre diferentes regiões e grupos sociais, alimentada por discursos políticos que reforçam divisões ideológicas e econômicas. Além disso, importamos ideologias ultrapassadas ou extravagantes do Hemisfério Norte, que nada têm a ver com a realidade das necessidades existentes no Brasil. O patriotismo que transcende governos e ideologias. No Brasil, esse sentimento precisa ser resgatado, promovendo símbolos nacionais e valores que unam a população em torno de um projeto comum. O Brasil é muito mais que Lulismo ou Bolsonarismo.
Confúcio enfatizava que “a harmonia é mais valiosa do que a uniformidade.” É importante entender que uma sociedade pode ter diversidade de opiniões e culturas, mas deve encontrar pontos comuns que a unam. O Brasil precisa fortalecer sua coesão social sem apagar suas diferenças. Estas diferenças constituem a maior riqueza do País.
Os meios de comunicação desempenham um papel central na construção da imagem de um país. No Brasil, há um foco excessivo nos problemas, sem o devido equilíbrio na exposição das conquistas. Isso gera um ciclo de pessimismo e descrença na capacidade nacional. A mídia precisa repensar sua ação para incluir mais histórias de inovação, progresso e excelência brasileira em diversas áreas, afim de construir uma autoimagem mais confiante e inspiradora.
A forma como um país se vê reflete diretamente em sua atuação no cenário global. O Brasil ainda mantém, em muitos círculos políticos e acadêmicos, a visão de que é uma nação periférica, sem grande influência, um anão diplomático. No entanto, o país tem uma das maiores economias do mundo, um peso geopolítico relevante e um papel estratégico fundamental no Sul Global. A construção de uma nacionalidade deve incluir uma reavaliação dessa mentalidade, reforçando a confiança na capacidade brasileira de liderar em áreas como sustentabilidade, comércio internacional e diplomacia multilateral.
Confúcio afirmou que “o homem superior atribui a culpa a si mesmo; o homem inferior atribui a culpa aos outros.” Se o Brasil deseja ser um protagonista global, deve parar de enxergar a si mesmo como vítima das circunstâncias e assumir um papel ativo na construção de seu próprio destino. Portugal não pode ser mais culpado pelos erros brasileiros.
O Brasil tem inúmeras qualidades que o diferenciam no contexto global. A criatividade e o dinamismo do povo brasileiro são trunfos inegáveis. O Brasil é um celeiro de inovação na música, nas artes e na tecnologia, e sua cultura é reconhecida mundialmente. O país já produziu cientistas de renome, atletas de excelência e artistas premiados. No entanto, essas conquistas raramente são celebradas internamente, o que reforça a sensação de inferioridade e limita o potencial de construção de uma nacionalidade forte.
Se o Brasil deseja construir uma identidade nacional forte e se posicionar como uma potência global, precisa abandonar o pessimismo crônico e começar a valorizar suas conquistas, sua história e seu potencial. A mudança dessa mentalidade é essencial para que o país deixe de se enxergar como uma eterna colônia ou um “anão diplomático” e assuma seu verdadeiro papel como uma potência emergente, capaz de influenciar e transformar o mundo.