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Acesso à inovação: o desafio para uma saúde verdadeiramente sustentável

- Imagem: Reprodução/Shutterstock

Mara Machado Publicado em 03/07/2026, às 08h30

Dois estudos publicados recentemente na JCO Global Oncology, da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), trazem um retrato preocupante da oncologia brasileira. Entre pacientes com câncer de pulmão portadores de alteração no gene ALK — um subtipo que representa cerca de 5% dos casos —, três anos após o diagnóstico, 87% dos pacientes atendidos na saúde suplementar permaneciam vivos, enquanto esse percentual era significativamente inferior, de 61% entre aqueles tratados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Mais do que uma diferença estatística, esses números evidenciam uma desigualdade que precisa ser enfrentada sob a perspectiva da sustentabilidade do sistema de saúde.

Os estudos mostram que o problema começa antes mesmo do tratamento. Enquanto 94% dos oncologistas da rede privada relataram acesso rotineiro aos exames de perfil molecular, no SUS esse percentual cai para 44%. Sem o diagnóstico adequado, muitos pacientes sequer descobrem que possuem uma alteração genética passível de tratamento com terapias-alvo, iniciando tratamentos menos efetivos e perdendo uma janela terapêutica decisiva. O resultado é igualmente expressivo: pacientes da rede privada permaneceram, em média, 40 meses sem progressão da doença, contra apenas 11 meses no SUS.

Esse cenário ganha ainda mais relevância diante do crescimento da carga do câncer no Brasil. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o país deverá registrar cerca de 704 mil novos casos de câncer por ano no triênio 2023-2025, sendo aproximadamente 32 mil novos casos anuais de câncer de pulmão, um dos tumores com maior mortalidade. O envelhecimento populacional, aliado ao aumento das doenças crônicas, impõe um desafio crescente aos sistemas de saúde, que precisarão atender mais pessoas, por mais tempo e com tecnologias cada vez mais sofisticadas.

É justamente nesse contexto que atuar sob a perspectiva da saúde sustentável se torna indispensável. Sustentabilidade não significa apenas controlar despesas ou incorporar tecnologias de forma seletiva. Significa direcionar recursos para intervenções capazes de gerar maior valor em saúde, proporcionando melhores resultados clínicos, maior qualidade de vida e utilização mais eficiente dos recursos disponíveis. A medicina de precisão representa um exemplo claro dessa lógica: ao identificar quais pacientes realmente se beneficiarão de determinado tratamento, evita terapias ineficazes, reduz desperdícios e melhora significativamente os desfechos clínicos.

O desafio brasileiro, portanto, não é apenas científico ou regulatório. Em muitos casos, a incorporação de tecnologias já ocorreu, mas sua implementação permanece limitada por barreiras financeiras, operacionais e de financiamento. Quando exames moleculares deixam de ser realizados ou medicamentos incorporados não chegam efetivamente aos pacientes, perde-se não apenas uma oportunidade terapêutica, mas também a eficiência esperada do próprio investimento público realizado em inovação.

Construir um sistema mais sustentável exige avançar em modelos de financiamento baseados em valor, ampliar o acesso ao diagnóstico de precisão, fortalecer a avaliação contínua de tecnologias em saúde e estimular mecanismos inovadores de incorporação e remuneração, como contratos por desempenho e negociações de risco compartilhado. Diversos países já demonstram que é possível equilibrar inovação, sustentabilidade financeira e acesso equitativo quando as decisões são orientadas por evidências e resultados.

Os dados apresentados pelos estudos do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica vão além da realidade do câncer de pulmão. Eles reforçam uma reflexão mais ampla: a sustentabilidade da saúde depende da capacidade de transformar conhecimento científico em acesso efetivo. Afinal, um sistema só pode ser considerado verdadeiramente sustentável quando a inovação deixa de ser privilégio de poucos e passa a representar melhores resultados para toda a população.

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