Mara Machado Publicado em 29/05/2026, às 08h00
O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou força nos últimos meses e rapidamente se transformou em disputa ideológica. De um lado, argumentos econômicos sobre competitividade e custos. De outro, discussões sobre qualidade de vida e direitos trabalhistas. Mas talvez estejamos olhando para a questão de forma superficial demais.
O problema não está apenas na quantidade de dias trabalhados. Está no modelo de funcionamento que a escala simboliza: sistemas que operam continuamente no limite, sustentados pela lógica de máxima ocupação da força de trabalho, pouca margem de recuperação física e emocional e dependência crescente de esforço individual para manter a operação funcionando.
Durante muito tempo, acreditou-se que produtividade significava simplesmente trabalhar mais horas, ocupar mais tempo e reduzir pausas. Hoje, porém, as evidências mostram algo diferente. Ambientes submetidos à pressão contínua tendem a produzir fadiga cognitiva, aumento de erros, desgaste emocional, absenteísmo e perda progressiva de eficiência. Em outras palavras: sistemas exaustos podem até parecer produtivos no curto prazo, mas se tornam estruturalmente frágeis no longo prazo.
Isso já pode ser observado em diferentes setores da economia, especialmente na saúde. Pesquisas recentes realizadas pelo IQG identificaram perdas relevantes de produtividade associadas ao presenteísmo, situação em que o profissional está fisicamente presente, mas opera sob esgotamento físico e mental.
Em muitos casos, o problema não aparece imediatamente nos indicadores tradicionais. O sistema continua funcionando. Mas funciona às custas de sobrecarga contínua, adoecimento e risco crescente.
O ponto central é que organizações pressionadas demais perdem capacidade de aprendizagem, cooperação e adaptação. Profissionais cansados erram mais. Lideranças sobrecarregadas tomam decisões piores. Ambientes emocionalmente exaustos tornam-se menos seguros, menos inovadores e mais reativos. O desgaste deixa de ser individual e passa a ser estrutural.
Isso ajuda a explicar por que o debate sobre jornada de trabalho não pode ser reduzido apenas à matemática das horas trabalhadas. A discussão real é sobre sustentabilidade organizacional. Nenhum sistema sustenta qualidade de forma contínua quando depende permanentemente do esgotamento de quem executa o trabalho.
Ao mesmo tempo, seria simplista imaginar que reduzir jornadas, por si só, resolverá o problema. Não resolverá. A simples eliminação da escala 6x1, sem reorganização operacional, ganho de eficiência, revisão de processos e investimento em tecnologia e gestão, pode apenas deslocar tensões para outros pontos do sistema. O desafio é mais profundo.
O Brasil enfrenta uma transição importante. Aumento dos transtornos mentais, crescimento do absenteísmo, dificuldade de retenção de profissionais e queda de engajamento indicam que parte relevante dos modelos atuais de trabalho começa a dar sinais claros de esgotamento. Ignorar isso talvez seja insistir em uma lógica produtiva que já não se sustenta economicamente nem humanamente.
A questão, portanto, não é simplesmente trabalhar menos. É trabalhar de forma mais sustentável. Isso exige liderança, revisão cultural e coragem para abandonar modelos baseados exclusivamente em ocupação máxima e pressão contínua.
Porque produtividade sustentável não nasce do limite permanente. Nasce da capacidade de preservar pessoas, manter qualidade e garantir que os sistemas consigam continuar funcionando sem consumir, no processo, aqueles que os sustentam.