Às vésperas da Copa do Mundo, o Brasil vive uma desconexão inédita entre povo e seleção brasileira. O problema já não está apenas dentro de campo, mas também na perda da identidade que um dia transformou o futebol em patrimônio emocional do país.
Kascão Publicado em 14/05/2026, às 14h37
O Brasil sempre foi o país da Copa do Mundo. O país que pintava rua, pendurava bandeira na janela, soltava pipa, fogos e até faltava compromisso para assistir jogo da seleção. A Copa era quase uma religião nacional. Só que hoje, sinceramente, parece que isso acabou.
Estamos a poucos dias da convocação final da seleção brasileira para a Copa do Mundo dos Estados Unidos, México e Canadá, mas existe um sentimento estranho no ar. Não é ansiedade. Não é empolgação. Muito menos confiança. É indiferença.
Talvez essa seja a seleção brasileira mais sem identidade da história.
É impressionante perceber como o torcedor perdeu o vínculo emocional com a amarelinha. Hoje em dia, muita gente está mais preocupada em completar álbum de figurinha ou organizar feriado durante os jogos do que propriamente apoiar a seleção. Pergunte na rua qual seria a escalação ideal do Brasil. Pouquíssimos sabem responder. Isso era impensável anos atrás.
E essa distância não surgiu do nada.
Ela é consequência direta de décadas de má gestão, corrupção, escândalos e decisões que afastaram o torcedor daquilo que sempre foi dele. A entidade que administra o futebol brasileiro conseguiu transformar paixão em desgaste. O torcedor cansou.
A seleção deixou de representar o povo como representava antigamente. Antes, o brasileiro se enxergava ali dentro. Existia identificação, carisma e sentimento. Hoje parece apenas mais uma marca corporativa tentando sobreviver da nostalgia.
Claro que o brasileiro ainda torce. Ninguém quer ver a seleção fracassar. Mas aquele frio na barriga já não existe como antes. A sensação hoje é muito mais protocolar do que emocional.
E talvez a maior prova disso seja o debate sobre Neymar.
A expectativa para a convocação gira muito mais em torno da presença ou não do Neymar do que propriamente sobre o desempenho coletivo da equipe. Como jornalista, eu convocaria o Neymar. Pela notícia, pelo peso do nome, pelo impacto midiático. Agora, falando apenas de futebol, faz tempo que ele não joga a bola que já jogou um dia.
O Brasil entra em mais uma Copa tentando reencontrar não apenas um futebol competitivo, mas principalmente sua identidade. Porque título sem conexão também perde valor.
A verdade é dura, mas precisa ser dita: se o Brasil ganhar, ótimo. Mas se perder, dessa vez talvez não tire o sono de quase ninguém.