MP aponta violação ao patrimônio cultural afro-brasileiro
Gabriela Nogueira Publicado em 19/12/2025, às 17h15
O Ministério Público da Bahia entrou com uma ação civil pública contra a cantora Claudia Leitte, pedindo que ela seja condenada ao pagamento de R$ 2 milhões por danos morais coletivos. A iniciativa tem como base uma acusação de discriminação religiosa ligada à mudança de um trecho da música Caranguejo, feita pela artista em apresentações realizadas em 2024.
Segundo o MP, a cantora substituiu o verso que fazia referência à orixá Iemanjá por uma menção a “Yeshua”, nome usado em referência a Jesus. Para a Promotoria, a alteração foi interpretada como um desrespeito às religiões de matriz africana e ao patrimônio cultural associado a essas tradições, especialmente por se tratar de uma canção ligada ao contexto cultural e religioso da Bahia.
A ação é conduzida pela promotora Lívia Maria Santana e Sant’Anna Vaz, da Promotoria de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa, em conjunto com Alan Cedraz Carneiro Santiago, coordenador do Núcleo de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural. O Ministério Público sustenta que a mudança na letra ultrapassa a liberdade artística ao suprimir um símbolo religioso historicamente associado à cultura afro-brasileira.
Além da indenização, o MP solicita que o valor seja destinado ao Fundo Estadual de Defesa dos Direitos Difusos ou a entidades representativas das religiões de matriz africana. O pedido inclui ainda uma retratação pública em veículos de alcance nacional e a adoção de um compromisso formal para que a artista se abstenha de práticas consideradas discriminatórias em shows, entrevistas, obras artísticas e publicações nas redes sociais.
A representação que deu origem ao processo foi apresentada pela iyalorixá Jaciara Ribeiro, com apoio do Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras, e acompanhada pelo advogado Hédio Silva Jr. Para os autores da denúncia, a alteração da letra simboliza um apagamento cultural e religioso que reforça práticas de intolerância historicamente enfrentadas por comunidades de matriz africana.
Em nota, o Ministério Público informou que a ação foi protocolada no início do mês e também pede uma decisão liminar para impedir novas condutas semelhantes enquanto o processo estiver em andamento. A assessoria de imprensa de Claudia Leitte foi procurada, mas ainda não se manifestou.