
Lele Abdala Publicado em 15/09/2025, às 09h14
Não é preciso que alguém te xingue na rua para o racismo existir. Ele pode estar no silêncio do convite que nunca chega, na vaga de emprego que sempre vai para a mesma cor, no olhar desconfortável que atravessa o corpo negro sem palavras. É um racismo que não grita, mas mina, adoece e sufoca. E, exatamente por ser sutil, é ainda mais perverso.
O racismo explícito choca e mobiliza. O racismo sutil confunde. Ele se disfarça de brincadeira, de “preferência pessoal”, de “não vi”, de “não é bem assim”. E esse disfarce o torna invisível para quem não quer ver. Mas para quem vive, ele é um peso diário.
Esse racismo opera no corpo como um estresse crônico. O coração acelera, a tensão muscular aumenta, o sono se fragmenta. Pesquisas em saúde mostram que pessoas negras têm taxas mais altas de hipertensão e outras doenças ligadas ao estresse constante. Não é coincidência. É o corpo reagindo ao perigo silencioso. É a alma carregando gerações de vigilância, sobrevivência e resistência.
Carl Jung dizia: “Nada que esteja reprimido deixa de influenciar o inconsciente coletivo.” O racismo sutil é exatamente isso: uma sombra coletiva que persiste porque não é encarada. Ele não se dissolve com discursos bonitos nem com “eu tenho amigos negros”. Ele se dissolve com ações concretas, escuta verdadeira e desconstrução diária de privilégios.
A polêmica é essa: muitos acreditam que não são racistas porque não são agressivos. Mas o racismo também mora na omissão. Mora no algoritmo que não convida pessoas negras para os podcasts mais populares, nos painéis sem diversidade, nas empresas que usam diversidade como marketing, mas não promovem pessoas negras a cargos de liderança.
A saúde mental da população negra é profundamente impactada por esse cenário. E não é só questão de terapia individual. É um problema estrutural que exige consciência coletiva. Silenciar ou minimizar é perpetuar.
Mas também existe potência.
A arte, os movimentos sociais, as redes de apoio criadas por pessoas negras são um sopro de resistência e cura. É possível transformar dor em força. Mas isso não deveria ser obrigação deveria ser escolha.
A sociedade precisa parar de adoecer as pessoas negras para, então, cobrar que elas “superem” tudo com resiliência.
Reflexão para hoje:
“Não basta não ser racista. É preciso ser antirracista. O silêncio é cúmplice.”
Agora é com você:
Nos vemos na próxima coluna.
Com verdade e compromisso,
Lele Abdala
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