Como Santander e Itaú ignoram irregularidades em algumas das maiores jazidas de manganês do Brasil, permitindo que o garimpo ilegal e o crime organizado tomem conta
Jair Viana Publicado em 05/11/2025, às 14h17
No calor seco de Marabá, a poeira do manganês volta a subir — não pelas máquinas de uma mineradora, mas pelas pás e escavadeiras de garimpeiros.
As áreas da Buritirama Mineração S.A., que já sustentaram a maior produção de manganês da América do Sul, hoje são território em disputa entre a ilegalidade e a omissão institucional dos bancos.
O que pouca gente percebe é que, no papel, a gestão dessas áreas está sendo conduzida, durante este período de disputas judiciais, por representantes do sistema financeiro, com pouca experiência de campo.
Desde que a Justiça interveio na administração da Buritirama, em julho de 2023, o dia a dia dos ativos passou para a Geribá Investimentos Ltda. — uma gestora de fundos com sede na Avenida Juscelino Kubitschek, em São Paulo — conhecida por atuar em ativos estressados e por fazer “front” para os bancos Santander e Itaú.
Em abril de 2024, já havia sinais de que as coisas não caminhariam bem sob a nova direção.
Porém, em uma jogada capitaneada por Santander e Itaú — dois dos maiores credores — foi impedido que a gestão temerária tivesse fim. Muito pelo contrário.
Em vez de aproveitarem a oportunidade criada com a convocação da Assembleia Geral de Credores, no início daquele mês, para encerrar a relação com a Geribá Investimentos, os bancos dobraram a aposta. Solicitaram ao magistrado responsável pelo processo a suspensão da reunião, deixando consignada a posição dos credores majoritários em apoio ao trabalho da Geribá e à sua nomeação efetiva até o final do processo.
Foi assim que peticionou o Itaú, seguido por Santander e outros credores, com manifestações de igual teor:
Portanto, após decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, sob demanda de dois dos maiores bancos do país, uma mineradora produtiva foi transformada em um ativo financeiro sob a administração de uma gestora privada.
Na prática, foi como entregar o subsolo brasileiro a quem entende de planilhas, mas não de mineração.
De mina produtiva a ativo financeiro
Por mais de uma década, a Buritirama foi referência no setor mineral. Chegou a responder por quase metade da produção nacional de manganês durante a gestão do antigo acionista, segundo relatórios da Agência Nacional de Mineração (ANM).
Em 2022, a Buritirama e seu acionista solicitaram à Justiça do Pará uma mediação com os bancos para equilibrar as contas e dar continuidade às atividades. A proposta foi rechaçada pelos bancos, liderados pelo Santander, sob comando do CEO Mário Leão, e pelo Itaú, de Milton Maluhy.
Os ativos avaliados em bilhões de reais — jazidas, máquinas, portos e licenças — foram congelados à espera de uma solução judicial e seguem sendo depredados e dilapidados. Segundo uma fonte local:
“A empresa passou anos construindo e preservando um patrimônio. Com a ingerência e a omissão dos bancos, as terras foram invadidas, a empresa perdeu toneladas de minério roubado e os ilegais tomaram conta de tudo. Parece que os bancos trabalharam para destruir a empresa por interesses escusos. Lavagem de dinheiro não é descartada.”
A Geribá Investimentos, sob o comando de Paulo Figueiredo, está desde 2023 na administração. Seus relatórios entregues à Justiça geram dúvidas sobre o que realmente está acontecendo nas operações. Gestores anteriormente dispensados por indisciplina e corrupção interna foram recontratados pela Geribá e colocados à frente das principais áreas da empresa. Estranhamente, um dos fornecedores mais criticados na antiga gestão — e também dispensado por apresentar faturas acima dos valores apontados pela empresa — foi trazido de volta com máquinas para operar as minas.
“Esse movimento parece o do criminoso voltando à cena do crime. O que mais estranha a todos nós é que todos aqui na região já sabiam, e mesmo assim a Geribá e os bancos fizeram questão de chamá-los de volta. Eu preferi me manter fora e fiz acordo para sair da empresa. Isso não vai dar certo”, afirmou uma das fontes que trabalhava na empresa.
Diferentemente de um operador técnico, a Geribá é uma gestora financeira — não possui corpo de engenheiros e tampouco experiência de campo. Entende de planilhas.
“A intervenção criou um vácuo. E, no lugar da operação produtiva, veio o gerenciamento financeiro”, resume um ex-consultor da Buritirama.
“Só que minério não se conserva em balanço — ele é explorado. E se o Estado não o protege, alguém o faz. E quem vai pagar todo esse prejuízo?”, concluiu.