Suspensão de embarques pelo Estreito de Ormuz e paralisação no Catar pressionam mercado global de energia
Letícia Sales Publicado em 02/03/2026, às 14h03
A escalada militar entre Irã e Israel provocou um forte abalo no mercado internacional de energia nesta segunda-feira (2). Os preços de referência do gás natural no atacado na Holanda e no Reino Unido saltaram mais de 50%, impulsionados pela interrupção de embarques pelo Estreito de Ormuz e pela paralisação da produção no Catar.
Por volta das 13h30 (horário de Brasília), o gás natural era negociado a US$ 111,66, acumulando alta superior a 60% em relação ao fechamento da sexta-feira anterior. A disparada ocorre em meio à decisão de armadores e grandes empresas do setor de suspender o transporte de petróleo, combustíveis e gás natural liquefeito (GNL) pela principal rota energética do Oriente Médio.
A estatal QatarEnergy confirmou a interrupção temporária da produção de GNL após ataques a instalações industriais nas cidades de Ras Laffan e Mesaieed, no Catar. O país é um dos maiores exportadores globais de gás natural, e qualquer restrição em sua oferta tem impacto imediato nos preços internacionais.
Cerca de 20% do GNL comercializado no mundo passa pelo Estreito de Ormuz, corredor estratégico que conecta o Golfo Pérsico ao restante do planeta. Uma paralisação prolongada pode intensificar a competição global por cargas alternativas, especialmente dos Estados Unidos, pressionando ainda mais os preços na Europa e na Ásia.
No mercado europeu, o contrato para o mês seguinte no hub TTF, na Holanda — principal referência de preços do continente — subiu quase 8 euros, alcançando 39,96 euros por megawatt-hora (MWh). No Reino Unido, o contrato equivalente avançou mais de 23 pence por termia, segundo dados da ICE.
Analistas alertam que, mesmo sem um bloqueio total da rota marítima, uma redução parcial já seria suficiente para levar o TTF próximo de 50 euros/MWh. O momento é delicado para a Europa, que ampliou significativamente suas importações de GNL após reduzir a dependência do gás russo desde a invasão da Ucrânia.
Os estoques europeus, atualmente em torno de 30% da capacidade, estão abaixo do nível registrado no mesmo período do ano passado, segundo dados da Gas Infrastructure Europe. Com o inverno recente tendo consumido parte relevante das reservas, o continente precisa recompor seus estoques antes da próxima temporada de frio — tarefa que pode se tornar mais cara e complexa diante da nova crise geopolítica.