'Herançocracia'

Como o patrimônio dos pais está mudando o futuro da geração Z e dos millennials?

Pesquisadora britânica diz que herança e apoio familiar pesam mais que mérito e salário na vida adulta das novas gerações

- Imagem: Reprodução | Freepik

Marina Milani Publicado em 18/02/2026, às 13h31

A historiadora britânica Eliza Filby tem chamado atenção de empresas e lideranças ao defender que o mercado de trabalho vive uma virada silenciosa: para grande parte dos profissionais com menos de 45 anos, a segurança financeira e a chance de comprar um imóvel dependem mais da família do que da carreira.

Autora do livro Inheritocracy, best-seller no Reino Unido, ela sustenta que o mundo caminha para uma “herançocracia” — um modelo em que patrimônio herdado e suporte familiar pesam mais que desempenho individual. Em palestras a executivos, a pesquisadora costuma resumir a mudança de forma direta: hoje, muitos trabalhadores têm mais chance de prosperar sendo leais aos pais do que ao chefe.

A tese parte da análise de como a geração dos baby boomers — nascidos no pós-guerra — acumulou riqueza imobiliária e patrimonial em um período de forte crescimento econômico. Já as gerações seguintes enfrentaram imóveis mais caros, educação custosa e maior instabilidade profissional. O resultado é um cenário em que salário e diploma já não garantem, sozinhos, os marcos clássicos da vida adulta.

Segundo Filby, o ideal de meritocracia foi distorcido ao longo do tempo. O termo, criado originalmente como crítica social, virou sinônimo de virtude. Na prática, porém, o sistema educacional e o mercado passaram a concentrar oportunidades em trajetórias muito estreitas, enquanto os custos de acesso subiram. Muitos jovens se endividaram para obter diplomas que não entregam mais o retorno esperado.

Nesse contexto, ganhou força o chamado “banco da mamãe e do papai”: ajuda financeira direta, pagamento de estudos, apoio com moradia, cuidado dos netos e cobertura de despesas. Não se trata apenas de transferências de dinheiro, mas de uma rede familiar que substitui lacunas deixadas por políticas públicas e por relações de trabalho mais voláteis.

A pesquisadora argumenta que o fenômeno atravessa classes sociais. Em famílias de renda mais baixa, o suporte aparece na forma de moradia compartilhada, alimentação e cuidado cotidiano. Já entre os mais ricos, pode significar entrada no mercado imobiliário ou capital inicial para negócios. A diferença é que nem todos têm essa retaguarda — e isso amplia desigualdades de origem.

Os efeitos, segundo ela, vão além das finanças. A escolha de parceiros, o planejamento de carreira e até a disposição para assumir riscos profissionais passam a considerar o patrimônio familiar disponível. Cresce o número de casais formados por pessoas com níveis semelhantes de segurança financeira herdada.

Para Filby, empresas e governos precisarão rever modelos de formação e proteção social. Ela defende mais investimento corporativo em capacitação contínua e políticas que reduzam a dependência exclusiva da família como rede de segurança. Caso contrário, diz, aumenta o risco de descrença no valor do esforço individual — com impacto direto na economia e na coesão social.

DESIGUALDADES BABY BOOMERS meritocracia Herançocracia

Leia também