Diário de São Paulo
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Se os ouvintes não se interessarem pelo que falamos, a culpa será nossa

Imagem Se os ouvintes não se interessarem pelo que falamos, a culpa será nossa

Publicado em 26/06/2022, às 00h00 - Atualizado às 06h16 Redação


Não existe ouvinte desinteressado, mas sim orador desinteressante. Quando estamos falando diante do público, temos à disposição uma série de recursos para conquistar, manter e reconquistar a atenção da plateia. Vale quase tudo, menos perder a concentração das pessoas. Para deixar a turma interessada, você pode contar piadas, sapatear, fazer imitações, cantar, mexer com a audiência, etc.

Os perrengues profissionais

Ao longo desses últimos 47 anos como professor de oratória e palestrante, já enfrentei praticamente toda sorte de desafios.

Tive de falar, por exemplo, várias vezes, sem o apoio de recursos visuais por falha dos equipamentos. E eram situações em que o resultado da exposição dependia do apoio das projeções. Após alguns minutos de espera, como não haveria solução, fui obrigado a encontrar uma saída, e substituir os slides por uma apresentação mais dinâmica e interativa. De um jeito ou de outro é preciso sempre chegar a um bom resultado.

Eu me lembro de um dos momentos mais difíceis que enfrentei na minha carreira. Uma instituição financeira me contratou para falar com seus executivos em um sábado à tarde. Eram cerca de 500 profissionais dos mais diferentes departamentos.

Circunstâncias desafiadoras

O evento foi realizado no Teatro Zaccaro, no bairro do Bexiga, em São Paulo. Na sexta-feira, depois de exaustivas reuniões, para relaxar, os participantes assistiram à apresentação de uma famosa dançarina. Terminado o show, foram jantar nas cantinas italianas que ficavam no bairro. Comeram macarronada à vontade e tomaram muito vinho.

No dia seguinte pela manhã enfrentaram atividades ainda mais cansativas. Os temas estavam relacionados a números e computadores. Como ninguém é de ferro, na hora do almoço voltaram às cantinas para experimentar outras massas e tomar novos vinhos. E foi com esse ânimo que, depois do almoço, retornaram ao teatro para assistir à minha palestra.

Eu olhava por trás da cortina do palco e acompanhava a chegada de cada um deles. Nada me tirava da cabeça que assistir a uma palestra sobre oratória é o que menos desejavam naquela tarde. Só faltava deitarem no ombro do outro para dar um cochilo.

As soluções

Confesso que sou desafinado para cantar. Ruinzinho mesmo. Ainda assim, durante muitos anos ensaiei exaustivamente uma parodia que havia aprendido com um amigo na época da faculdade. Treinei tanto até atingir um bom nível de afinação. Só conseguia cantar essa música com razoável qualidade, as outras continuavam insuportáveis.

A canção ficava na manga para as emergências. E aquela era uma das maiores que já havia enfrentado. Antes mesmo de começar a falar, me preparei para mostrar àquelas vítimas os meus dotes artísticos.

Comecei brincando com os ouvintes. Fiz referência à dançarina da noite anterior. Mostrei-me solidário com o esforço que estavam fazendo naquele final de semana. E fui encaixando por um bom tempo as técnicas mais curiosas de comunicação com algumas histórias interessantes. A minha apresentação estava programada para duas horas de duração. Passados uns 50 minutos percebi que muitos já estavam pescando. Tentavam segurar a cabeça, até como respeito ao palestrante, mas o cansaço era mais forte.

Hora do show

Nesse momento, pedi que acendessem algumas luzes para deixar o palco bem iluminado. Fui para o local mais claro e fiz uma pausa prolongada para criar expectativa. Perguntei se havia ali algum descendente de árabes. Sempre há. Ainda mais em uma plateia de 500 ouvintes. Vários levantaram o braço.

Disse que faria uma homenagem à colônia árabe. Estufei o peito e soltei a voz. Nunca havia cantado com tanta competência. Saiu melhor que a encomenda. No final, fui longamente aplaudido de pé. Parece que ficaram mesmo muito entusiasmados com o meu desempenho.

É preciso ter contexto

Em seguida, para contextualizar o que acabara de fazer, comentei que esse era um recurso que poderia ser utilizado em situações como aquela. E que, se eu, que não possuía nenhuma vocação artística, conseguia, pelo menos de forma remediada, entoar uma melodia, todo mundo também teria condições. E, se não desse para cantar de jeito nenhum, que decorassem piadas ou histórias instigantes, pois teriam resultado idêntico.

Bem, sobrevivi àquela saia justa. A maioria me acompanhou com interesse até o final, e o evento teve uma conclusão feliz.

No encerramento da palestra muitos foram me cumprimentar muito mais por ter mantido o público atento que propriamente pelo conteúdo.

Estejamos preparados para esses imprevistos. Dia mais cedo ou dia mais tarde poderemos ser exigidos a demonstrar nossos dotes. Siga pelo Instagram: @polito

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