A guerra aberta pela Procuradoria-Geral da República contra a Lava Jato tem como principal alvo a “matriz” de Curitiba, mas o desmonte das forças-tarefas

Redação Publicado em 01/08/2020, às 00h00 - Atualizado às 12h57
A guerra aberta pela Procuradoria-Geral da República contra a Lava Jato tem como principal alvo a “matriz” de Curitiba, mas o desmonte das forças-tarefas dedicadas a combater o maior esquema de corrupção já descoberto no país deve produzir um impacto ainda pior na “filial” de São Paulo, onde os inquéritos envolvem, principalmente, os esquemas do PT e do PSDB.
A maior ameaça às investigações está na extinção da dedicação exclusiva dos procuradores que compõem as forças-tarefas, justamente uma das chaves do sucesso da Lava Jato. A intenção ficou evidente na última última sexta-feira, 24, quando a PGR lançou um edital para recrutar colaboradores para os grupos de São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Brasília. Nenhum deles terá exclusividade no combate à corrupção.
Com o argumento de que é preciso dar continuidade ao serviço público, mas reduzir despesas por causa da lei do teto dos gastos públicos, aprovado em 2016, a PGR pretende lotar as forças-tarefas com novos investigadores que desconhecem a fundo o sofisticado mecanismo de corrupção e que terão de conciliar as complexas investigações com seus trabalhos habituais no Ministério Público Federal.
São Paulo é um exemplo concreto do estrago que o plano de Augusto Aras pode provocar na Lava Jato. Nos dois anos em que atuou sem procuradores com dedicação exclusiva, entre 2017 e 2018, a força-tarefa paulista realizou uma única operação. O grupo, inclusive, foi alvo de críticas por causa da lentidão nas apurações. A partir 2019, quando cinco procuradores passaram a se dedicar exclusivamente aos inquéritos, oito operações foram realizadas, como a que levou à denúncia contra o senador José Serra, do PSDB, no início do mês.
O cerco da PGR à Lava Jato atinge São Paulo justamente no período em que as investigações começaram a deslanchar. São mais de 100 procedimentos em curso dentro do grupo que conta com apenas oito procuradores. No início do ano, membros da força-tarefa foram até Brasília pedir reforços a Augusto Aras, mas as decisões do chefe do MPF foram no sentido contrário.
Em junho, a PGR negou a prorrogação da dedicação exclusiva de uma das procuradoras da força-tarefa paulista, que agora tem que conciliar a investigação sobre pagamentos de 20 milhões de reais de propina do Banco Paulista a funcionários do Banco Central, durante os governos do PT, com audiências sobre tráfico de drogas e questões indígenas em Naviraí, no Mato Grosso do Sul.
Outros dois procuradores tiveram suas designações estendidas somente até agosto, apesar do pedido de prorrogação por mais um ano. Assim, a partir de setembro, a força-tarefa da Lava Jato de São Paulo deve ficar com apenas três procuradores com dedicação exclusiva, o que, na visão dos investigadores, compromete significativamente o andamento dos inquéritos e aumenta as chances de prescrição dos crimes investigados.
Entre os casos que serão afetados pelo desmonte da força-tarefa estão dezenas de anexos das delações das empreiteiras Odebrecht, OAS e Andrade Gutierrez, que envolvem políticos tucanos como José Serra e Aloysio Nunes, e da colaboração do ex-ministro Antonio Palocci, que narra uma série de crimes que teriam sido praticados pelo PT.
Há ainda na lista as supostas propinas pagas por gigantes como Oi e Qualicorp às empresas de dois filhos do ex-presidente Lula. Uma delas, a Gamecorp de Fábio Luis, o Lulinha, foi enviada da força-tarefa de Curitiba para São Paulo por decisão da Justiça e está parada.
IG
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