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A Questão do Exemplo

Imagem A Questão do Exemplo

Publicado em 29/06/2022, às 00h00 - Atualizado às 07h59 Redação


O mundo atravessa um período difícil particularmente pela ausência de lideranças que ofereçam bons exemplos. As estruturas familiares, em suas mais variadas formas de apresentação, também enfrentam dificuldades na educação de novas gerações. É preciso que a transferência de sabedoria e de aprendizado sejam constantes. Infelizmente, em sociedades em que a eterna juventude é supervalorizada, perde-se muito no processo evolutivo e a sabedoria das gerações é relegada a segundo plano.

No Parque Nacional de Pilanesberg, na África do Sul, observou-se um fenômeno anormal: os elefantes estavam atacando e matando rinocerontes. Ataques de elefantes a rinocerontes até ocorrem, mas a quantidade de carcaças encontradas – mais de 50 – na ocasião deixou os pesquisadores preocupados. Os suspeitos da chacina de rinocerontes eram um grupo de elefantes machos adolescentes (entre 12 e 20 anos), passando por um período chamado de mosto. Neste estágio, o macho jovem se torna agressivo em razão do aumento nos níveis hormonais, podendo ser até 60 vezes maior do que em condições normais. Esta fase pode durar entre 1 dia e 4 meses.

Ao se estudar a natureza da violência, os pesquisadores se deram conta da razão fundamental: ao final da década de 1970, o Parque Nacional Pilanesberg recebeu elefantes de outros parques nacionais. Como os machos adultos eram enormes (tamanho e peso) e extremamente difíceis de transportar, optou-se somente por levarem machos novos, fêmeas e bebês.

Buscaram-se alternativas para a situação em Pilanesberg: controle artificial do mosto do elefante, castração ou uma solução natural. Na natureza, já se havia observado que os machos adultos eram capazes de controlar os mais jovens em razão do seu tamanho e também pela transmissão de valores. Assim, optou-se por introduzir seis grandes elefantes machos do Parque Nacional Kruger, na África do Sul, em Pilanesberg para observar se haveria alguma mudança. Literalmente, em poucas horas, os elefantes adolescentes passaram a controlar o instinto violento. A figura estável e paterna dos elefantes mais velhos estabeleceu limites para os elefantes adolescentes, com a melhoria do seu comportamento social.

Os chineses têm um ditado muito interessante sobre a questão da sabedoria dos mais velhos: 马识 (lǎomǎshítú) – “um cavalo velho sabe o caminho”. A base deste provérbio é relacionada ao período da primavera e outono, quando um nobre chinês liderou seu exército para atacar uma outra região. Ao partirem, na primavera, a grama pujante revestia o solo. No entanto, ao retornarem no inverno, a neve e os ventos fortes haviam tomado conta do solo. Os batalhões se perderam.  Diante disso, um conselheiro do nobre lhe disse: “os cavalos velhos devem saber o caminho!” Assim, o nobre determinou que alguns dos cavalos mais velhos fossem escolhidos para liderar o caminho de volta. E assim o fizeram, retornando a casa em pouco tempo.

Um dos grandes desafios enfrentados pela sociedade moderna é a inexistência de bons parâmetros, particularmente para os mais jovens. Desde o início de sua história, a humanidade tem-se caracterizado pelo fato de uma geração legar à próxima condições melhores de vida. É, assim, que ao longo dos séculos, a qualidade de vida tem melhorado sobremaneira. No entanto, esta é a primeira vez, na história, em que uma geração legará à próxima uma qualidade de vida deteriorada. Embora a evolução representada pela globalização, tecnologia e Internet tenham deixado a vida melhor, a fluidez dos valores sociais, a situação familiar, o endividamento pessoal, o desemprego e a polarização política constituem desafios que os jovens terão de enfrentar, muitas vezes sem a sabedoria dos mais velhos porque estes não têm seu valor reconhecido ou se esquivam de contribuir.

Nenhuma sociedade prospera, efetivamente, se cada um não souber a sua posição, relevância e função. Um país decente precisa valorizar a família, as boas práticas sociais, os idosos e, sobretudo, a importância da transmissão de valores para as novas gerações. Isto passa pela valorização do mérito como forma de evolução econômica, política e social. Também considera a questão da honestidade, integridade e a confiança como essenciais para a solidificação de uma sociedade moderna e adaptada aos grandes desafios que o século XXI impõe e imporá.

Observa-se, no caso brasileiro, muitas vezes, um desapego quanto ao futuro do País e um conformismo no sentido de que as coisas são de determinada forma e nada há que possa modificar o rumo. Quando os mais velhos transmitem este tipo de ideia e cenário aos mais jovens, que esperança podem ter eles de que dias melhores virão? Ou como poderão sonhar com um futuro melhor se aqueles que são responsáveis por legar-lhes algo melhor se sentem derrotados pelas circunstâncias? Não pode ser assim. Cabe relembrar a frase do escritor irlandês, George Bernard Shaw, que afirmou: “Alguns homens (e mulheres) veem as coisas como elas são e dizem por que; eu sonho com coisas que nunca foram e digo, por que não?”

Tudo parte do compromisso que temos com o futuro e do quanto os mais experientes pretendem, ainda, contribuir na construção de dias melhores, corrigindo seus próprios erros do passado. Sem o conhecimento das gerações, sem a vontade de construir um legado, os mais jovens estarão condenados a um futuro pior, medíocre e sem perspectivas melhores. O canto da sereia representado por grupos políticos, religiosos, sociais e econômicos, por certo, trarão satisfação temporária e até encontrarão ressonância numa sociedade que persiste no erro. Mas os cavalos velhos já sabem o caminho e têm a função de, ainda que desvalorizados, alertar para as consequências das escolhas e decisões. Se os mais vividos não fizerem a sua parte, os resultados para o País não serão os melhores e o potencial do Brasil, como nação, seguirá desperdiçado. Dias melhores virão, se – e somente se – reestruturarmos a sociedade para que se construa um futuro melhor, jamais imaginado, porém viável, baseado na sabedoria do passado, na força do presente e na esperança do futuro.

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