Diário de São Paulo
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A menina, a juíza, o ministro e o crucifixo

Imagem A menina, a juíza, o ministro e o crucifixo

Publicado em 25/06/2022, às 00h00 - Atualizado às 10h01 Redação


Uma juíza manda uma menina de 11 anos para um abrigo para que ela não possa ter direito a um aborto legal. Um ex-ministro da Educação é preso por irregularidades no uso  do dinheiro público. Duas notícias que mostram que temos problemas graves, muito graves.

Mas o que tem a ver uma coisa com a outra? Tudo! A gravidez da menina é mais uma demonstração de que temos uma grande desatenção com uma das funções da escola, que é proteger as crianças e os jovens de agressões que ocorrem, principalmente, dentro de casa.

Como um país com pensamento conservador, em que a família é, em diversos discursos, à direita e à esquerda, a unidade básica e inviolável da sociedade, pode evitar que ela se torne, em vez de um ambiente de interação e crescimento, um lugar de atos violentos livres de punição?

Não dá para mudar a cabeça das pessoas da noite para o dia, não é possível desconstruir a ideia de que a família é inquestionável, não dá para tirar os quadros da Sagrada Família das paredes. Mas dá para influenciar, com políticas públicas ligadas à educação, que os indivíduos, desde jovens, possam ter capacidade crítica e possibilidade de salvação quando as famílias se tornam ameaças.

O que aconteceu com a menina de Santa Catarina é culpa e responsabilidade direta de quem usa mal os recursos públicos para a educação, tanto pela corrupção quanto pela incapacidade de planejar uma educação que liberte e forme pessoas conscientes de seus direitos e limites.

O foco da crítica na juíza, escolhido pela imprensa e pelos ativismos nas redes, é importante, mas não dá conta do todo. Temos que olhar para cada estrutura pública ligada ao desenvolvimento da educação no país, inclusive para o Ministério da Educação, e entender o que as pessoas nessas estruturas têm feito para que haja liberdade para que indivíduos, desde a infância, possam ter suas vontades e suas vidas respeitadas.

Quanto desses ambientes da Educação estão invadidos por irresponsáveis que querem, a todo o custo, incluir ideologias religiosas e políticas questionáveis para manter o poder e evitar que a educação libertadora seja um risco para os seus lugares de comando?

A prisão do ex-ministro lembra que os recursos públicos destinados à Educação não são poucos, mas são utilizados contra a menina de Santa Catarina e tantas outras crianças, que sofrem quando quem chega à vida pública são pessoas como a juíza, que não conseguem ver individualidade em uma criança, mas apenas uma portadora de um “bem maior”, que ninguém perguntou se ela queria ser.

“A sua tristeza agora é a felicidade de um casal depois”, foi uma das frases que foram ditas a ela, em uma sala da Justiça de um Estado laico, com um crucifixo pendurado na parede. Mas isso é assunto para outra conversa.

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