Pesquisa liderada pela bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, usa proteína experimental com estrutura em cruz para promover reconexão neuronal

por Marina Milani
Publicado em 17/02/2026, às 12h21
Uma pesquisa brasileira conduzida pela bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), surge como uma das mais promissoras no mundo na busca por tratamentos que permitam a recuperação de movimentos em pessoas com lesões graves na medula espinhal. O foco do estudo é a polilaminina, uma versão polimérica de uma proteína natural — a laminina — cuja estrutura tridimensional lembra uma cruz, funcionando como um suporte biológico para guiar e estimular a regeneração das conexões nervosas danificadas.

A polilaminina é derivada da laminina, uma proteína que integra a matriz extracelular e desempenha papel essencial na organização e no crescimento dos neurônios durante o desenvolvimento embrionário. A forma em cruz da molécula não tem significado simbólico, mas é importante biologicamente porque sua configuração estrutural facilita a orientação e o alongamento de prolongamentos dos neurônios (axônios), fundamentais para a transmissão de sinais entre as células nervosas.
Após quase 30 anos de investigação, o grupo liderado por Sampaio conseguiu reproduzir em laboratório essa proteína – agora chamada de polilaminina – e, em experimentos com animais, os efeitos foram descritos como vistosos em semanas. Estudos com ratos mostraram que a aplicação da substância diretamente na medula lesionada promove a regeneração de axônios e melhora significativa na locomoção, mesmo em ambientes desfavoráveis à recuperação nervosa. Testes com cães também apresentaram recuperação notável da capacidade motora ao longo de meses de acompanhamento.
Com base nesses resultados pré-clínicos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou o início da fase 1 de testes clínicos em humanos, um marco histórico para a ciência brasileira. Nesta etapa inicial, cinco pacientes com lesão medular traumática recente — ou seja, ocorrida há poucos dias — serão submetidos à aplicação de polilaminina nas regiões afetadas e acompanhados por vários meses para avaliar a segurança do tratamento e a potencial recuperação funcional.
Pesquisadores envolvidas no estudo ressaltam que a polilaminina não é, por si só, uma “cura milagrosa”. Em vez disso, ela representa um avanço biotecnológico que cria um ambiente favorável para que os neurônios reconstruam suas conexões, uma etapa fundamental para restaurar parte das funções motoras que, até agora, eram consideradas praticamente impossíveis de recuperar após lesão completa da medula espinhal.
Especialistas em neurociência avaliam que esse tipo de abordagem coloca o Brasil entre os protagonistas mundiais na área de regeneração neural e abre perspectivas inéditas para o futuro do tratamento de pessoas paraplégicas e tetraplégicas. Além da polilaminina, os próximos anos de pesquisa podem integrar combinações terapêuticas, incluindo fatores de crescimento e suporte cirúrgico, para potencializar ainda mais os resultados.
A investigação, que já deu passos importantes em modelos animais e agora avança para testes em humanos, representa um dos projetos de maior impacto científico do país — um esforço que combina décadas de dedicação acadêmica com potencial de transformar a vida de milhares de pessoas com lesões medulares.
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