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SAÚDE

Idade biológica pode explicar por que câncer avança entre jovens, aponta estudo

Pesquisa com mais de 150 mil pessoas relaciona diferença entre idade cronológica e biológica ao aumento de diagnósticos precoces da doença

Desafios para entender por que jovens envelhecem mais rápido incluem obesidade precoce e sedentarismo, fatores que aumentam o risco de câncer - Imagem: Reprodução/Magnific
Desafios para entender por que jovens envelhecem mais rápido incluem obesidade precoce e sedentarismo, fatores que aumentam o risco de câncer - Imagem: Reprodução/Magnific

Letícia Sales Publicado em 23/07/2026, às 09h59


Susanna descobriu ter câncer colorretal aos 28 anos. André foi diagnosticado com câncer de pulmão aos 34. Ambos compartilham suas trajetórias contra a doença nas redes sociais — e não estão sozinhos. O Centro Alemão de Pesquisa do Câncer (DKFZ) identificou um crescimento expressivo nos casos de câncer colorretal entre pessoas de 20 a 39 anos na Alemanha, tendência também observada nos Estados Unidos, onde as taxas são ainda mais altas. Outros tipos da doença, como câncer de medula óssea e de endométrio, também vêm surgindo com mais frequência entre os mais jovens.

Uma doença tradicionalmente associada à terceira idade

Apesar do avanço entre pessoas mais jovens, o câncer segue sendo, majoritariamente, uma doença ligada ao envelhecimento. Segundo a organização Ajuda Alemã contra o Câncer, a idade média de diagnóstico entre homens e mulheres é de 69 anos. Isso acontece porque as células cancerígenas surgem quando trechos do DNA sofrem mutações que o organismo não consegue mais reparar — e esse sistema de reparo perde eficiência com o passar dos anos.

O que a ciência descobriu sobre idade biológica

Um estudo conduzido por pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Washington, nos EUA, pode ajudar a explicar por que pessoas com menos de 50 anos têm sido diagnosticadas com certos tipos de câncer com mais frequência: quanto mais jovem o indivíduo, maior a distância entre sua idade cronológica e sua idade biológica.

Enquanto a idade cronológica corresponde ao tempo de vida desde o nascimento, a idade biológica reflete o real estágio de envelhecimento do organismo — que pode variar entre órgãos e tecidos de uma mesma pessoa. Fígado, cérebro e coração, por exemplo, podem envelhecer em ritmos distintos.

De acordo com Ron Jachimowicz, médico onco-hematologista do Hospital Universitário de Colônia e chefe de um grupo de pesquisa no Instituto Max Planck de Biologia do Envelhecimento, esta é a primeira vez que se estabelece uma ligação entre esse descompasso etário e o câncer precoce. Ainda assim, ele pondera: "O que não se deve esquecer é que este é um estudo correlacional." Segundo o médico, os achados fornecem indícios plausíveis, reforçando algo que já se suspeitava — a associação entre envelhecimento biológico e maior suscetibilidade ao câncer.

Como os cientistas mediram o envelhecimento

Determinar a idade biológica não é simples: não existe um teste único e definitivo. Os pesquisadores combinam testes epigenéticos, que avaliam alterações químicas no DNA, análises de marcadores sanguíneos, medição do comprimento dos telômeros — estruturas que protegem as extremidades dos cromossomos — além de testes fisiológicos e cognitivos.

Foi justamente essa combinação de métodos que os autores do estudo aplicaram ao analisar dados de mais de 150 mil pessoas cadastradas no UK Biobank, banco de dados biomédico britânico. Os resultados mostraram que pessoas nascidas entre 1965 e 1974 apresentavam uma diferença significativamente maior entre idade cronológica e biológica do que as nascidas entre 1950 e 1954. Um levantamento adicional com dez mil pessoas nos EUA revelou um descompasso ainda maior entre os nascidos na década de 1990 em comparação aos nascidos entre 1965 e 1969.

Segundo os autores do estudo, "na Austrália, Canadá, Reino Unido e EUA, pessoas nascidas na década de 1990 têm pelo menos quatro vezes mais risco de desenvolver câncer colorretal em idade precoce em comparação com pessoas nascidas na década de 1960".

Genética e estilo de vida dividem responsabilidades

Durante muito tempo, acreditou-se que entre 75% e 90% da idade biológica poderia ser moldada pelo estilo de vida. Jachimowicz discorda dessa proporção: "Podemos influenciar 50%; os outros 50% são geneticamente determinados." Entre os fatores que ajudam a retardar o envelhecimento estão exercícios físicos regulares, alimentação equilibrada, sono de qualidade, o afastamento de álcool e drogas, e também a manutenção de vínculos sociais.

Por que os mais jovens envelhecem mais rápido

Explicar por que as novas gerações envelhecem biologicamente mais depressa que seus pais e avós ainda é um desafio, mas há hipóteses em estudo. Tanwei Yuan, epidemiologista da Unidade de Epidemiologia Clínica de Rastreamento de Câncer do DKFZ, em Heidelberg, aponta que "os jovens tendem a desenvolver obesidade mais cedo e, portanto, por um período mais longo de suas vidas". Segundo ela, o maior tempo de exposição a telas também contribui para um sono menos reparador e um estilo de vida mais sedentário — fatores que, para a pesquisadora, reforçam as hipóteses defendidas pelos cientistas que estudam o câncer.

Yuan fala com propriedade sobre o tema: aos 32 anos, após um período se sentindo mal, foi diagnosticada com um pólipo no cólon. Embora inicialmente inofensivos, os pólipos podem evoluir para câncer se não forem tratados a tempo. Por isso, ela recomenda atenção aos sinais do corpo: "Se você não se sentir bem, procure um médico e peça um exame."

Ainda não é possível medir a idade biológica na rotina médica

Apesar dos avanços, um médico ainda não consegue determinar a idade biológica de um paciente em consulta comum. Jachimowicz explica que o tema segue sendo "objeto de pesquisa científica atual, mas não faz parte da prática clínica diária". Para ele, no entanto, é para essa direção que a medicina deve caminhar — especialmente no campo da oncologia e das possíveis formas de intervenção precoce. "Esse é o futuro, algo realmente promissor", conclui.

* Conteúdo DW


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