Campanha nacional alerta para sintomas que costumam ser ignorados e reforça que identificar a doença em estágio inicial aumenta as chances de sucesso do tratamento e reduz o risco de sequelas.

Ana Beatriz Silva Publicado em 22/07/2026, às 13h59
Sintomas como feridas na boca que não cicatrizam e rouquidão persistente podem indicar câncer de cabeça e pescoço, alertando para a importância do diagnóstico precoce durante a campanha Julho Verde, instituída pela Lei nº 14.328 de 2022.
Um estudo do Instituto Nacional de Câncer revelou que 78,2% dos casos diagnosticados entre 2000 e 2017 estavam em estágios avançados, com desigualdades no diagnóstico relacionadas à escolaridade e acesso à saúde.
O SUS tem realizado mais de 500 mil procedimentos para tratamento desses cânceres nos últimos cinco anos, e a prevenção depende de hábitos saudáveis, como não fumar e evitar álcool, além de acompanhamento médico regular.
Uma ferida na boca que não cicatriza, uma rouquidão que se prolonga por semanas ou um caroço persistente no pescoço podem parecer problemas comuns. No entanto, quando não desaparecem, esses sintomas precisam ser avaliados por um profissional de saúde, pois podem indicar câncer de cabeça e pescoço.
O alerta integra o Julho Verde, campanha nacional de conscientização sobre a prevenção e o diagnóstico precoce desse grupo de tumores. A mobilização foi instituída pela Lei nº 14.328, de 2022, e busca ampliar o conhecimento da população sobre fatores de risco, sintomas suspeitos e formas de acesso ao atendimento pelo Sistema Único de Saúde.
Os cânceres de cabeça e pescoço podem atingir diferentes estruturas, como lábios, boca, língua, gengiva, garganta, laringe, faringe, cavidade nasal, glândulas salivares e tireoide. Embora sejam reunidos em uma mesma campanha, os tumores podem apresentar comportamentos, sintomas e tratamentos diferentes conforme o local em que se desenvolvem.
Maioria dos casos analisados chegou em estágio avançado
Um estudo conduzido pelo Instituto Nacional de Câncer analisou mais de 145 mil registros de pacientes diagnosticados no Brasil entre 2000 e 2017. A pesquisa mostrou que 78,2% dos tumores avaliados foram descobertos nos estágios III ou IV, quando a doença já estava avançada.
A proporção de diagnósticos tardios chegou a 91,3% nos tumores da hipofaringe, 86,6% nos da orofaringe, 75,1% nos da cavidade oral e 69,5% nos casos de câncer de laringe. O levantamento também identificou desigualdades relacionadas à escolaridade e ao acesso aos serviços de saúde. Pessoas sem educação básica completa apresentaram probabilidade 17% maior de receber o diagnóstico em estágio avançado em comparação com aquelas que tinham ensino superior.
A descoberta tardia torna o tratamento mais complexo e pode aumentar o impacto da doença sobre funções essenciais, como fala, mastigação, deglutição e respiração. Quando o tumor é identificado no início, há maior possibilidade de utilizar uma única modalidade terapêutica e preservar estruturas importantes da região afetada.
Quais sinais exigem atenção
Entre os principais sinais de alerta estão feridas na boca ou nos lábios que não cicatrizam por mais de 15 dias, manchas brancas ou avermelhadas na boca, caroços ou ínguas persistentes no pescoço, dificuldade ou dor para engolir, rouquidão por mais de três semanas e sensação constante de algo preso na garganta.
Sangramentos nasais recorrentes, perda de peso sem explicação, alterações na voz e dificuldade para movimentar a língua também devem ser investigados, especialmente quando persistem ou pioram com o passar do tempo.
No câncer de tireoide, o sinal mais frequente é o aparecimento de um nódulo na região do pescoço. O crescimento rápido desse nódulo ou sua associação com rouquidão, dificuldade para engolir ou alterações respiratórias exige avaliação médica.
Esses sintomas também podem estar relacionados a doenças benignas e não significam, isoladamente, que a pessoa esteja com câncer. A persistência, porém, não deve ser ignorada. A recomendação é procurar uma Unidade Básica de Saúde para avaliação.
Tabaco e álcool estão entre os principais fatores de risco
O tabagismo é um dos principais fatores de risco para os tumores de cabeça e pescoço. Cigarros, charutos, cachimbos e outros produtos derivados do tabaco expõem os tecidos da boca, garganta e laringe a substâncias cancerígenas.
O consumo de bebidas alcoólicas também está associado ao desenvolvimento da doença. Quando álcool e tabaco são combinados, o risco é ainda maior. Uma pesquisa da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer apontou que aproximadamente sete em cada dez casos de câncer de cabeça e pescoço estão relacionados a fatores comportamentais que podem ser prevenidos, principalmente tabagismo e consumo de álcool.
A exposição solar prolongada e sem proteção aumenta especialmente o risco de câncer nos lábios. Outros fatores incluem higiene bucal inadequada, alimentação pouco saudável e exposição ocupacional a determinadas substâncias.
A infecção persistente pelo papilomavírus humano, principalmente pelo HPV do tipo 16, também está associada a parte dos tumores da orofaringe, região que inclui as amígdalas e a base da língua.
Estimativas mostram dimensão da doença
Para cada ano do período entre 2026 e 2028, o INCA estima 17.190 novos casos de câncer da cavidade oral no Brasil. Desse total, 12.260 devem ocorrer entre homens e 4.930 entre mulheres. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, esse tipo de câncer ocupa a sétima posição entre os mais incidentes no país.
A estimativa também aponta 8.510 novos casos anuais de câncer de laringe, sendo 7.310 em homens e 1.200 em mulheres. As taxas entre o público masculino são cerca de seis a sete vezes maiores do que entre as mulheres.
Para o câncer de tireoide, a projeção é de 16.450 novos diagnósticos por ano, com maior concentração entre as mulheres. São esperados 13.310 casos femininos e 3.140 masculinos anualmente.
Como é feito o diagnóstico
O primeiro atendimento pode ser realizado em uma Unidade Básica de Saúde. Dependendo dos sintomas e dos resultados da avaliação inicial, o paciente é encaminhado para profissionais especializados.
A confirmação costuma ser feita por meio de uma biópsia, procedimento em que uma pequena amostra do tecido suspeito é retirada e submetida a análise anatomopatológica. Outros exames de imagem podem ser solicitados para determinar a localização, a extensão e o estágio da doença.
O tratamento depende do tipo de tumor, do estágio, da localização e das condições clínicas do paciente. As alternativas incluem cirurgia, radioterapia e quimioterapia, aplicadas isoladamente ou de forma combinada. O acompanhamento também pode envolver profissionais de odontologia, fonoaudiologia, nutrição, fisioterapia, psicologia e reabilitação.
De acordo com o Ministério da Saúde, o SUS realizou mais de 500 mil procedimentos relacionados ao tratamento dos cânceres de cabeça e pescoço nos últimos cinco anos. O atendimento é organizado pela Rede de Prevenção e Controle do Câncer, desde a avaliação inicial até o cuidado especializado.
Prevenção depende de hábitos e acompanhamento
As principais medidas preventivas incluem não fumar, evitar o consumo de bebidas alcoólicas, manter uma alimentação equilibrada e cuidar da higiene bucal. Consultas odontológicas regulares também podem ajudar na identificação de alterações suspeitas na boca.
Durante a exposição ao sol, é importante proteger o rosto e os lábios com barreiras físicas e produtos adequados. Pessoas que trabalham por longos períodos em ambientes externos precisam redobrar os cuidados.
A vacinação contra o HPV, disponibilizada gratuitamente pelo SUS para o público definido pelo Programa Nacional de Imunizações, contribui para a prevenção das infecções relacionadas a diferentes tipos de câncer, incluindo parte dos tumores da orofaringe.
Mais do que concentrar a atenção apenas durante julho, a campanha reforça uma orientação válida durante todo o ano. Mudanças persistentes na boca, na garganta, na voz ou no pescoço devem ser investigadas. Procurar atendimento rapidamente pode fazer diferença tanto nas chances de controle da doença quanto na preservação da qualidade de vida.
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