
por Ricardo Sayeg
Publicado em 17/02/2025, às 11h51
São Paulo, 12 de fevereiro de 2025
Ao Excelentíssimo Senhor Chefe do Crime Organizado no Estado de São Paulo (Cujo nome não sei, mas sei que Vossa Excelência existe e age com eficiência)
Assunto: Pedido de Proteção à Vida dos Cidadãos Paulistanos
Excelentíssimo Senhor,
Dirijo-me a Vossa Excelência, Chefe do Crime Organizado no Estado de São Paulo, em respeito ao que tenho ouvido e lido nas falas e declarações de autoridades públicas do meu país. Governadores, ministros, senadores, deputados, prefeitos e até membros do Judiciário, todos eles, em momentos diversos, reconhecem e mencionam a força e a estrutura de poder que Vossa Excelência e sua organização consolidaram ao longo dos anos.
Não o conheço pessoalmente. Não sei seu nome, tampouco seu endereço. Mas sei que Vossa Excelência existe. E não só existe: prospera. É tema de reuniões ministeriais, de debates parlamentares e até de manchetes em jornais internacionais. Ou seja, Vossa Excelência se fez conhecido — não por sua face, mas por sua influência, que, segundo me dizem, já alcança os mais variados setores da economia e da política.
Consta que Vossa Excelência e sua organização estão, hoje, envolvidos em atividades que ultrapassam em muito aquilo que antigamente se chamava “mundo do crime”. A construção civil, a distribuição de combustíveis, a logística portuária, os serviços de transporte, a área da saúde, os laboratórios, as farmácias e até o mercado financeiro. São palavras que ouço da boca de ministros e autoridades que respeito, e por isso não posso duvidar.
Então, Excelentíssimo Senhor, com todo respeito, ouso suplicar algo. Se Vossa Excelência já é, como dizem, uma força ativa na economia e na geração de empregos, permita-me fazer um pedido de quem é apenas um cidadão: ajude-nos a preservar a vida de inocentes.
Sim, peço a Vossa Excelência que, dentro da sua reconhecida competência e do poder que detém sobre seus liderados, intervenha junto aos setores mais violentos da base dessa “estrutura empresarial paralela”. Em especial, falo daqueles que estão executando, todos os dias, pais e mães de família por causa de um celular, um relógio, uma bicicleta ou um carro. Falo desses que não apenas roubam, mas matam – e matam por nada.
Permita-me dizer, Senhor, que este pedido não é irônico. Ele é desesperado.
Sabemos que Vossa Excelência é organizado, que suas ordens são cumpridas, e que, quando há desobediência interna, a correção vem de modo rápido e severo. Sabemos que, em sua estrutura, quem erra responde por isso. Portanto, rogo que faça chegar até a ponta da cadeia essa mensagem simples: “Não se mata por um celular. Não se mata por um relógio. Não se mata por uma bicicleta.”
Se o roubo, ainda que lamentável, é o preço que nós, cidadãos comuns, estamos pagando por um Estado ausente e por uma segurança pública falida, que assim seja. Mas, por Deus, que nos levem apenas os bens materiais. Que não nos arranquem também a vida.
Sei que pedir isso ao Senhor parece absurdo. Afinal, não deveria ser ao Governador, ao Prefeito, ao Ministro da Justiça que eu me dirigisse? Sim, deveria. E o fiz. Mas, Excelência, em tempos estranhos como os que vivemos, ouço das próprias autoridades que, muitas vezes, quem realmente exerce o controle sobre as ruas é Vossa Excelência e sua rede.
Então, quem sou eu para ignorar essa realidade?
Se de fato Vossa Excelência, como dizem, já governa certas partes da cidade e influencia até mesmo setores da economia formal, peço: governe também com sabedoria sobre a vida. Instrua seus subordinados a nos deixarem vivos. E quem sabe, Excelência, um dia, talvez, nossos filhos não precisarão mais escrever cartas como esta.
Respeitosamente,
Agostinho Turbian
Cidadão paulista, empresário e pai de família
P.S. – Sei que esta carta talvez jamais chegue até suas mãos. Ou talvez chegue. Porque, afinal, dizem que Vossa Excelência tudo vê e tudo sabe. Por via das dúvidas, confio que a mensagem será compreendida.
Esta carta elaborada e subscrita pelo meu amigo-irmão Agostinho Turbian encarna o desespero que estamos vivendo.
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