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Por que não acreditam quando Tarcísio diz que não é candidato?

Imagem: Reprodução
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Reinaldo Polito

por Reinaldo Polito

Publicado em 18/01/2026, às 08h37


Chega a ser inacreditável como tanta gente duvida que Tarcísio ficará fora da corrida presidencial, sejam aliados ou opositores. O governador de São Paulo declarou que nunca desistiu de uma candidatura à Presidência simplesmente porque jamais teve essa candidatura.

Disse também, na quinta-feira, 15, que apoia o senador Flávio Bolsonaro na eleição presidencial deste ano. Não se trata de uma afirmação isolada. Tarcísio tem repetido, de forma consistente, que seu objetivo é disputar a reeleição ao governo paulista.

Ainda assim, poucos parecem levar sua palavra ao pé da letra. Seu nome continua a aparecer com frequência nas pesquisas eleitorais. A Genial/Quaest divulgou, na quarta-feira, 14, a primeira pesquisa do ano sobre intenções de voto para presidente e, mais uma vez, Tarcísio figurava entre os nomes mais competitivos.

Um não candidato preferido

É curioso observar como um não candidato pode despertar tamanha preferência. Parece que a palavra do governador não é suficiente para impedir o eleitor de desejá-lo presidente. Mais curioso ainda é imaginar qual seria seu desempenho caso assumisse oficialmente a condição de candidato. É razoável supor que seus números seriam ainda mais expressivos.

Forma-se, então, um paradoxo. Alguém afirma, com todas as letras, que não concorre, mas aparece como um dos principais concorrentes. Parte da explicação está no comportamento de outros políticos no passado, que fizeram declarações semelhantes, negaram intenções eleitorais e, às vésperas do prazo final, acabaram lançando suas candidaturas.

O passado pesa

Os exemplos se acumularam ao longo do tempo. José Serra, em 2010, afirmou que não disputaria a Presidência da República e chegou a registrar essa posição formalmente. Meses depois, estava no palanque como candidato. O episódio tornou-se emblemático não apenas pela mudança de posição, mas pelo efeito simbólico. Nem mesmo um gesto solene foi suficiente para sustentar a palavra empenhada.

Algo semelhante ocorreu com Luiz Inácio Lula da Silva, que em diferentes momentos declarou não pretender voltar a disputar a Presidência, mencionando idade, cansaço e a necessidade de renovação política. Ainda assim, acabou concorrendo novamente e venceu a eleição de 2022. Para seus eleitores, a decisão foi vista como resposta a um chamado histórico. Para outros, reforçou a ideia de que negativas desse tipo são sempre provisórias.

Memória coletiva

Há também o caso de Fernando Haddad, que afirmou não ser candidato em 2018, mas acabou assumindo a disputa presidencial após a impugnação da candidatura de Lula. Ainda que o contexto tenha sido excepcional, o efeito foi o mesmo. A palavra dita revelou-se frágil diante da dinâmica política.

Esses episódios ajudam a explicar por que as declarações de Tarcísio são recebidas com desconfiança. Não se trata de um juízo sobre sua honestidade pessoal. Trata-se de memória coletiva. O eleitor aprendeu, pela repetição, que o “não sou candidato” pode significar apenas “ainda não”.

Para evitar ataques antecipados

Há ainda um fator nem sempre explicitado. No momento em que um político declara oficialmente que é candidato, transforma-se imediatamente em alvo. Passa a sofrer ataques sistemáticos dos adversários, tem sua trajetória vasculhada e decisões administrativas reinterpretadas sob viés eleitoral. A campanha começa antes da campanha.

Dizer que não é candidato funciona, portanto, como forma de autopreservação. Evita desgaste precoce, mantém o político fora do centro do confronto e lhe permite governar, ou ao menos preservar essa imagem, enquanto outros se atacam. Sob essa ótica, a negativa deixa de ser apenas retórica e passa a ser estratégia.

O coelho do atletismo aplicado à política

Alguns observadores vão além e levantam uma hipótese ainda mais sofisticada, que para alguns beira o absurdo. A de que a candidatura de Flávio Bolsonaro poderia cumprir, ao menos inicialmente, o papel de anteparo político, preservando o nome considerado mais forte do grupo. Enquanto um candidato formal ocupa o espaço, concentra ataques e absorve o desgaste natural da pré-campanha, o outro permanece protegido, fora do fogo cruzado.

O problema é que esse tipo de estratégia carrega riscos. À medida que o candidato exposto começa a crescer nas pesquisas, a lógica inicial pode se inverter. O desempenho positivo cria apoios próprios, desperta ambições legítimas e dificulta a retirada de cena. O que começou como proteção pode virar disputa interna. A candidatura provisória ganha vida própria.

No fim, a questão talvez não seja por que não acreditam em Tarcísio, mas por que aprenderam a não acreditar em negativas políticas. A desconfiança não é pessoal. É institucional. A palavra pode ser verdadeira, mas chega a um ambiente em que a confiança já foi corroída.

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