
por Reinaldo Polito
Publicado em 29/06/2025, às 08h00
Se as projeções do FMI (Fundo Monetário Internacional) estiverem certas, o Brasil pode despencar ainda mais ladeira abaixo. Segundo suas previsões, a dívida bruta brasileira, que hoje já é altíssima, superior a 76% do PIB, poderá bater nos 100% até 2029. É sinal vermelho para país nenhum botar defeito.
Os dados do FMI são ainda piores que as nossas contas caseiras. Enquanto aqui, pelos cálculos do Banco Central, a dívida gira em torno de 76% do PIB, o FMI adota uma metodologia diferente. Eles incluem na conta os títulos públicos que estão na carteira do Banco Central, o que elevou esse percentual para 87,3% em 2024. E estimam que chegue a 92% ainda este ano, com uma trajetória ascendente que pode levar a 99,4% em 2029, estabilizando-se nesse patamar em 2030.
Os ricos podem gastar
Para um país com as nossas características, a consequência dessa situação é alarmante. Primeiro, porque afasta investidores, que colocam um pé atrás na hora de financiar essa gastança. Depois, porque é fator determinante para manter as elevadas taxas de juros.
Juros altos são um veneno para qualquer economia. Recursos que deveriam ser canalizados para investimentos e desenvolvimento escorrem pelo ralo no pagamento de taxas cada vez mais pesadas. E quando se olha para o horizonte e se depara com um gráfico ascendente, por melhores que sejam os planos, eles se tornam inexequíveis.
Tudo depende da confiança
Essas distorções comprometem a avaliação das agências de risco, que classificam nossa capacidade de pagamento, e dificultam a retomada do desenvolvimento. Aqui está uma das grandes desvantagens em relação aos países que ocupam as prateleiras econômicas superiores. Mesmo endividados, os juros que pagam são infinitamente mais baixos.
Só como exemplo, o Japão. A dívida dos japoneses ultrapassa os 245% do PIB, mas os juros cobrados giram perto de zero. E não é de hoje que esse fenômeno ocorre. A diferença? Confiança. E o mesmo vale para outras nações desenvolvidas.
Quem acredita nessa história?
Para saber se o nosso número é alto ou baixo, é preciso comparar com países de desenvolvimento semelhante. E aí, o retrato é constrangedor. O Brasil ostenta o terceiro lugar entre os 20 países emergentes mais endividados, perdendo apenas para Bolívia e Argentina.
Alguns otimistas ainda tentam dourar a pílula. Dizem, por exemplo, que o Brasil é o único que manteve a relação dívida/PIB estável quando comparado aos números pré-pandemia. Ok. Conta essa história para os investidores e veja o que eles acham.
Para reduzir esse percentual e colocar o país nos trilhos, o governo precisaria mudar completamente sua política de endividamento. Mas como cortar gastos públicos? Será que áreas como saúde, educação e infraestrutura poderiam ser afetadas? Mesmo que cortem agora, qual será o impacto sobre a população?
Reduzir a burocracia é um caminho
A solução seria reduzir o tamanho do Estado, enxugar a máquina pública e aumentar a produtividade. Mas essa definitivamente não é a vocação do governo. Em vez disso, prefere criar, desesperadamente, novas formas de arrecadação, pressionando uma economia já sufocada por impostos.
Esta semana, tentou aprovar o aumento na cobrança do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e só não conseguiu porque o Congresso impôs um freio. As condições são tão adversas que há quem defenda, dentro do próprio governo, recorrer ao STF (Supremo Tribunal Federal) para tentar reverter a derrota no parlamento.
Lula vai concorrer
Se isso acontecer, será, segundo analistas, a pá de cal na credibilidade da administração. Qualquer prognóstico a partir dessa iniciativa é desastroso para a imagem do presidente e pode acirrar ainda mais o confronto entre Executivo e Legislativo.
E há um agravante. Lula já anunciou sua intenção de disputar a reeleição em 2026. Para isso, precisa do apoio popular. Não é cobrando mais impostos, elevando a inflação nos alimentos e forçando o aumento dos juros, embora nos holofotes diga ser contra, que ele vai conquistar votos.
Popularidade mais baixa das três gestões
Se não consegue mais aumentar a arrecadação, terá que cortar gastos. Mas como ir de encontro às políticas sociais, se são justamente elas que podem garantir os votos?
Sua popularidade já é a mais baixa de suas três gestões. O dilema está posto: se cortar, perde voto. Se não cortar, degringola de vez a economia, que já anda mal das pernas. O velho ditado interiorano nunca foi tão pertinente: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Siga pelo Instagram: @polito
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