Amigo de Lula empresário foi preso e é alvo da Operação Lava Jato enquanto atua para emplacar indicado à Agência Nacional de Saúde

Jair Viana Publicado em 12/08/2025, às 08h04
Preso em 2020 pela Operação Lava Jato e investigado por corrupção e caixa dois, o empresário José Seripieri Filho, ex-presidente da Qualicorp e amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), atua nos bastidores para emplacar Wadih Damous na diretoria da Agência Nacional de Saúde (ANS). A escolha levanta preocupações sobre a idoneidade do indicado, que acumula histórico de comportamento misógino, desrespeito a mulheres em cargos de poder e má gestão em posições anteriores.
Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu quando Damous, inconformado com uma decisão da senadora Ana Amélia Lemos, figura respeitada na política brasileira, sugeriu que ela “comesse alfafa”. A frase, além de ofensiva, expôs desprezo pela autoridade feminina e postura incompatível com cargos de alta responsabilidade pública.
Atualmente titular da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), Damous já presidiu a OAB-RJ, período em que o plano de saúde dos advogados do Rio de Janeiro entrou em colapso financeiro. À frente da Senacon, manteve-se inerte quando a Amil rescindiu, de forma unilateral e sem justificativa, milhares de contratos de idosos. Sua leniência diante de abusos e seu histórico de ataques a mulheres colocam em xeque sua capacidade de comandar a ANS, órgão responsável por regular planos de saúde e garantir direitos aos consumidores. A sabatina no Senado, marcada para quarta-feira (13), será decisiva e, diante de seu passado, deveria ser rigorosa.
Caso INSS
Outro ponto que pesa contra Damous envolve um encontro, em 4 de junho de 2024, com três investigados por possíveis fraudes no INSS, relacionadas a descontos indevidos aplicados a aposentados. Ele se reuniu com Alessandro Stefanutto, Virgílio Oliveira Filho e André Fidelis, todos alvos da Operação Sem Desconto, da Polícia Federal.
Os investigados são acusados de integrar uma associação criminosa envolvendo entidades e sindicatos que teria causado prejuízo superior a R$ 6 bilhões aos aposentados do INSS, grande parte do desvio durante o atual governo de Lula.
Risco institucional
A ANS é vinculada ao Ministério da Saúde e atualmente comandada interinamente por Carla de Figueiredo Soares, que representa o oposto do perfil já demonstrado por Damous: competência técnica e postura respeitosa. A nomeação de um diretor com histórico de desrespeito a mulheres e proximidade de investigados em casos de corrupção compromete a confiança na atuação imparcial da agência.
Enquanto outras indicações para agências reguladoras, como a de Leandro Safatle para a Anvisa, têm base técnica e experiência comprovada, a de Damous carrega o peso de suas polêmicas. Cabe ao relator Sérgio Petecão (PSD-AC) e à Comissão de Assuntos Sociais do Senado avaliar não só o currículo, mas o caráter do indicado.
Se o Senado confirmar a nomeação, o recado será claro: o machismo e a falta de decoro ainda têm espaço no alto escalão da administração pública brasileira.
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