Na última manifestação realizada na Avenida Paulista ficou evidente o aumento no número de autodeclarados "de direita" e "conservadores", aponta estudo da USP

Marina Milani Publicado em 04/03/2024, às 08h10
Pesquisadores e estudantes da Universidade de São Paulo (USP) têm se dedicado nos últimos 10 anos ao estudo da polarização política no Brasil, com foco nas manifestações e movimentos sociais. Os dados coletados indicam uma crescente radicalização das manifestações de direita, especialmente evidenciada nos atos em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro, investigado por suspeitas de conspiração golpista.
O Grupo de Políticas Públicas para o Acesso à Informação (GPoPAI) da USP é responsável pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital, que reúne acadêmicos de diversas áreas, desde alunos de mestrado em Matemática até estudantes de História, Letras e Comunicação Social.
Segundo os pesquisadores, a última manifestação convocada por Bolsonaro, ocorrida no domingo passado (25) na Avenida Paulista, teve a maior adesão desde o final de 2015, indicando um aumento no número de pessoas que se declaram como "de direita" e "conservadoras".
Nove em cada dez participantes da manifestação se autodeclararam como "de direita", e mais de 95% afirmaram ser conservadores, sendo 78% "muito conservadores" e 18% "um pouco conservadores". Esse aumento na autoidentificação política foi observado ao longo dos anos, com um crescimento significativo desde 2017.
O professor Marcio Moretto, um dos coordenadores do GPoPAI, destaca que, apesar da identificação como conservadores, muitos participantes das manifestações têm uma abordagem mais reacionária do que conservadora, buscando resgatar valores do passado em oposição às mudanças progressistas.
Além disso, a presença de símbolos como bandeiras de Israel nas manifestações sugere uma forte influência da cultura judaico-cristã, especialmente entre os evangélicos, que representam uma parcela significativa dos manifestantes.
No entanto, Moretto ressalta que o perfil dos participantes dessas manifestações não é representativo da população brasileira, sendo predominantemente homens brancos, com mais de 45 anos e com nível superior de educação. A pesquisa também revelou uma resistência considerável em relação a medidas de exceção, como a decretação de estado de sítio e a intervenção das Forças Armadas.
Apesar das dificuldades de monitorar as redes sociais, o grupo continua seu trabalho de análise e observação, destacando a necessidade de regulamentação para garantir transparência e acesso aos dados. A pesquisa, realizada durante a manifestação na Avenida Paulista, entrevistou uma amostra de 575 pessoas, com uma margem de erro de quatro pontos percentuais para mais ou para menos.
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