Os manifestantes criticam negociações climáticas que tratam florestas como ativos e pedem justiça social e territorial

Gabriela Thier Publicado em 14/11/2025, às 15h51
No início da manhã desta sexta-feira (14), um protesto realizado por indígenas da etnia Munduruku chamou a atenção durante o quinto dia da Cúpula das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que acontece em Belém.
Por volta das 5h40, cerca de 90 integrantes da comunidade Munduruku ocuparam a área externa que dá acesso à Zona Azul, espaço destinado a negociadores e participantes credenciados do evento. A segurança foi intensificada com a presença de soldados do Exército, mas o ato se desenrolou de maneira pacífica, com o apoio de ativistas e representantes de povos indígenas de outras nações.
Os manifestantes exigiam uma reunião com o presidente Lula, que se encontrava em Brasília no momento. Uma das participantes expressou sua frustração: "Exigimos nosso direito aqui. Nós mulheres, nós caciques, jovens, crianças, com nossos bebês no colo. Exigimos a presença do presidente Lula. Mas infelizmente, não conseguimos ser ouvidos como sempre".
A principal reivindicação dos indígenas é a revogação do Decreto nº 12.600/2025, que permite a privatização de empreendimentos públicos federais relacionados ao setor hidroviário. O Movimento Munduruku Ipereg Ayu denunciou que o corredor Tapajós-Arco Norte é um dos principais vetores do avanço do agronegócio na Amazônia, conforme dados do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc).
Os representantes Munduruku também criticam as negociações climáticas internacionais, alegando que estas tratam as florestas nativas como meros ativos para crédito de carbono. Em seus cartazes, frases como "Nossa floresta não está à venda" e "Não negociamos a Mãe Natureza" refletiam suas preocupações.
Outra manifestante destacou: "Deixa a população sem educação, sem saúde. E cadê a Justiça pra nós? Cadê o mundo que diz defender os territórios e a Amazônia? A COP não fala por nós; fala pelos interesses destrutivos de países e empresas".
Além disso, os indígenas exigem a retirada imediata de invasores das terras que ocupam e pedem o fim do Marco Temporal, uma lei que limita os direitos territoriais dos povos originários apenas às terras ocupadas na data da promulgação da Constituição Federal, em 1988.
Um grupo de participantes da conferência formou um "cordão humano" para cercar e proteger os manifestantes. Embora isso tenha temporariamente dificultado o acesso ao evento climático, logo foi disponibilizado um acesso alternativo pelo local onde normalmente ocorre a saída dos participantes.
O presidente da COP30, André Corrêa do Lago, fez uma visita aos manifestantes para dialogar sobre suas demandas. O advogado Marco Apolo Santana, representante da Associação Wakoborun, acompanhou as conversas e comentou: "Elas se sentem excluídas. São as mesmas pessoas que fecharam a BR-163. Parece que só são ouvidas quando fazem manifestações. Felizmente, não houve violência e houve diálogo com o presidente da COP".
Após uma reunião entre os Munduruku e as ministras do Meio Ambiente, Marina Silva, e dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, o acesso principal à Zona Azul foi liberado pouco depois das 9 horas da manhã.
A comunidade Munduruku reside predominantemente na bacia do Rio Tapajós, localizada na região oeste do Pará.
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