Embaixador Benoni Belli afirmou que bombardeios e a detenção de Maduro violam a soberania venezuelana e criam um precedente perigoso para a ordem internacional

Lívia Gennari Publicado em 06/01/2026, às 15h20
O Brasil elevou o tom, mais uma vez, contra a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela durante reunião extraordinária do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA), realizada nesta terça-feira (6).
Em discurso firme, o representante permanente brasileiro, embaixador Benoni Belli, afirmou que os bombardeios em território venezuelano e a detenção do presidente Nicolás Maduro configuram uma violação grave da soberania nacional e representam um risco concreto à estabilidade das relações internacionais.
Segundo o diplomata, a ação americana ultrapassa limites inaceitáveis ao substituir o direito internacional pelo uso da força. Para o Brasil, o episódio cria um precedente perigoso, capaz de enfraquecer o sistema multilateral e abrir espaço para que países mais poderosos imponham suas decisões sobre nações mais frágeis.
Belli ainda destacou uma resolução recente da Comissão Jurídica Interamericana que reafirma a proibição do uso da força nas relações internacionais, salvo em situações expressamente previstas pelo direito internacional.
Durante sua fala, o embaixador brasileiro rejeitou a justificativa de que objetivos políticos possam legitimar meios extremos. Para ele, aceitar esse argumento seria abrir mão de princípios básicos, como o direito de cada país decidir seu próprio destino e o respeito entre as nações.
Embaixador liga prisão de Maduro a tensão regional
A intervenção dos Estados Unidos resultou na captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, episódio que, na avaliação do Brasil, remete a antigas interferências externas na América Latina. Para o embaixador Belli, essa ação vai contra o compromisso da região com a paz e aumenta a tensão em um cenário já delicado.
Apesar de não reconhecer o resultado das eleições presidenciais venezuelanas de 2024 — vencidas oficialmente por Maduro, mas contestadas pela oposição, que aponta Edmundo González como vencedor —, o Brasil deixou claro que divergências políticas não podem justificar intervenções militares ou violações da soberania de um país.
Na avaliação do Itamaraty, apenas um processo político amplo, conduzido pelos próprios venezuelanos e sem interferência externa, pode levar a uma solução legítima e duradoura para a crise no país.
Sem o respeito às regras multilaterais, perde-se não apenas a independência, mas também a dignidade nacional”, defendeu o representante brasileiro.
Países vizinhos também repudiam ação dos EUA
Além do Brasil, países como Colômbia, México e Chile se manifestaram contra a operação norte-americana. Durante a sessão, o discurso do representante dos Estados Unidos, Leandro Lizzuto, chegou a ser interrompido por um protesto de uma mulher presente no plenário, que criticava a atuação americana e demonstrava apoio à Venezuela.
Um dia antes, o Brasil já havia se posicionado de forma semelhante no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Na ocasião, o embaixador Sérgio Danese reiterou que não há legitimidade em ações que permitem aos mais fortes definir, de forma unilateral, o que é justo ou aceitável no cenário internacional.
Enquanto isso, Rússia e China, aliadas do governo venezuelano, também condenaram a intervenção. Os Estados Unidos, por sua vez, reagiram às críticas ao classificar Maduro como “fugitivo da Justiça” e defender a operação como uma ação para cumprimento da lei.
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