Nos últimos 2 anos, o número desses conteúdos subiu de 19 por semana para 228 por hora, segundo pesquisa

Ana Rodrigues Publicado em 26/09/2023, às 08h58
Os chamados "Chans", que são postagens em grupos anônimos, se notabilizam pelo ódio contra as mulheres e nos últimos dois anos tiveram um grande aumento: passaram de 19 por semana para 228 por hora. "Chans" é a abreviação de "channels", ou seja, canais. Esses espaços são anônimos, onde 90% são encontrados na deep webpossui como regra de ouro, a proibição da presença de mulheres.
Segundo o G1, entre junho de 2021 e junho de 2023 na pesquisa "Misoginia e Violência contra mulheres na internet: um levantamento sobre fóruns anônimos", liderado pelo Instituto Avon, mais de 9,5 milhões de posts dentro de 10 "chans" e 47 grupos em aplicativos de mensagens foram analisados. 46% desse conteúdo mencionava alguma forma de violência contra meninas e mulheres. Quando as discussões foram sobre pornografia, o número pulava para 69%.
O domínio da normal culta da língua portuguesa é usado como código de superioridade. Fazendo valer o anonimato, os frequentadores organizam ataques online, tendo como alvos influenciadoras e celebridades. Nos grupos e posts de canais que foram analisados, encontraram mais de 18 mil comentários que pedem vazamento de nudesou são fotos e vídeos vazados.
Nesses lugares, as mulheres são retratadas como objetos para satisfação sexual e chamadas de "depósito" de esperma. Outros termos que são comuns é "churrascar", que significa morrer, e "raid", que é expor intimidades de alguém.
Uma outra regra desses grupos é não compartilhar conteúdos sobre pornografia infantil, mas esta não é respeitada. A pesquisa encontrou uma grande demanda dos usuários por conteúdos de meninas menores de idades, chamadas de "novinhas" e "jail bait", ou seja, "isca de cadeia". Em grupos de aplicativos de mensagens monitorados, 36% têm a palavra "vazamento" no próprio título, parte deles seguido pela palavra "novinhas".
Apesar de serem fóruns anônimos, a pesquisa mapeou pelas postagens um perfil dos frequentadores. O perfil é bem definido: homens heterossexuais, a maioria são jovens entre 20 e 24 anos, e se identificam como conservadores. São pessoas que tem grandes dificuldades socioafetivas, sentimentos de fracasso e rejeição, em especial em relação às mulheres, por isso, repetem posicionamentos misóginos, racistas, xenofóbicos e de incitação à violência - incluindo zoofilia.
Eles ainda usam os fóruns para organizar ataques, com exposições de intimidade e perseguição moral, tanto na internet quanto fora dela. Algumas mulheres chegam até a receber ameaças de morte.
Os espaços com debates sobre mulheres são marcados por ressentimento, raiva e objetificação", diz a pesquisa.
Os "chans", para esses homens, é um espaço de sociabilidade, onde eles buscam outros homens que pensam da mesma forma. O estudo conclui que, "Há muito confronto de opiniões, discordâncias e críticas, mas também muito acolhimento e compartilhamento de um mesmo ponto de vista".
Fóruns desse tipo potencializaram ataques em escolas dos últimos anos, como o massacre de Realengo, em 2011, e o de Suzano, em 2019. Onde, logo após os ataques, comemorações e mensagens que atribuíam heroísmo aos crimes subiam nos posts.
Porém, além desses fóruns na deep web se popularizarem a cada ano, onde multiplica o engajamento, essa "cultura dos chans" tem saído da obscuridade e se tornado mais acessível, em plataformas sem anonimato. Segundo a pesquisa, o uso de termos "jail bait" e "depósito", que antes eram ditos apenas nos grupos, começaram a ser usados em redes abertas, como Twitter e o YouTube. Entre junho e julho deste ano, o número de menções dessas palavras triplicou.
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