Documentos citados em reportagem apontam que o ex-controlador do Banco Master teria acionado Thiago Miranda, ex-sócio do portal Léo Dias, para levantar informações pessoais, financeiras e empresariais do chairman do BTG Pactual. Publicitário foi alvo da 10ª fase da Operação Compliance Zero, que apura ataques ao Banco Central, monitoramento ilícito e intimidação de jornalistas.

Ana Beatriz Silva Publicado em 10/07/2026, às 16h21
A investigação sobre o colapso do Banco Master revela que Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição, pode ter encomendado dossiês sobre André Esteves, chairman do BTG Pactual, em meio a disputas pela venda do banco, levantando suspeitas de ações ilegais e de desinformação.
Os relatórios, supostamente elaborados por Thiago Miranda, ex-sócio do portal Léo Dias, continham dados pessoais e financeiros de Esteves, além de informações restritas, e surgiram em um contexto de crescente tensão entre Vorcaro e o banqueiro do BTG.
A Polícia Federal, em sua 10ª fase da Operação Compliance Zero, está investigando uma possível organização criminosa ligada a atos de intimidação e monitoramento ilegal, com mandados de busca e apreensão já cumpridos, enquanto a defesa de Miranda nega irregularidades e defende a legalidade de suas ações.
A investigação sobre o colapso do Banco Master ganhou um novo capítulo com a suspeita de que Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição, teria encomendado dossiês sobre André Esteves, chairman do BTG Pactual, durante o período de disputa em torno da tentativa de venda do banco. Segundo documentos citados pelo Estadão e repercutidos por outros veículos, os levantamentos teriam sido produzidos pelo publicitário Thiago Miranda, ex-sócio do portal Léo Dias, e reuniriam dados pessoais, financeiros e empresariais de Esteves.
De acordo com a apuração, os relatórios atribuídos a Miranda teriam sido feitos em meio ao acirramento da relação entre Vorcaro e Esteves. Um dos documentos, segundo os relatos publicados, reunia dados pessoais e financeiros do banqueiro do BTG, além de informações usadas para verificação de documentos pessoais, normalmente restritas a órgãos de segurança. Outro relatório teria mapeado vínculos diretos e indiretos de Esteves com empresas, neste caso com base principalmente em fontes abertas e registros empresariais.
O caso veio à tona na sequência da 10ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal na quinta-feira, 9 de julho. Em nota oficial, a PF informou que a ação apura indícios de atuação coordenada em redes sociais voltada, em tese, a comprometer a credibilidade do Banco Central. A corporação também afirmou que investiga possível organização criminosa dedicada à intimidação de jornalistas, ao monitoramento ilícito de pessoas ligadas a autoridades públicas, à obtenção indevida de informações sigilosas e à adoção de medidas destinadas a interferir em investigações criminais.
A operação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, e cumpriu dois mandados de busca e apreensão em Brasília. Um dos alvos foi Thiago Miranda, dono da Miranda Comunicação, também conhecida como Agência MiThi. Segundo a CNN Brasil, investigadores apontam Miranda como peça central em uma estrutura ligada a Vorcaro para a contratação de influenciadores e campanhas de defesa do Banco Master, além de ações contra o Banco Central e jornalistas.
A Reuters informou que Miranda havia sido contratado por Vorcaro para conduzir uma campanha de comunicação em defesa do Banco Master, já liquidado. A agência também relatou que, segundo decisão judicial, as suspeitas da nova fase incluem ataques ao Banco Central e a preparação de dossiê sobre Milton Maluhy Filho, CEO do Itaú Unibanco. A investigação aponta ainda possível envolvimento em tentativa de intimidação de jornalistas e monitoramento ilegal de pessoas.
No centro da apuração está a hipótese de que recursos ligados às fraudes investigadas no Banco Master teriam sido usados para financiar uma campanha de desinformação. Segundo a CNN, André Mendonça apontou em sua decisão que Daniel Vorcaro teria utilizado recursos provenientes das fraudes investigadas na instituição liquidada pelo Banco Central para bancar ações de comunicação voltadas a atacar a credibilidade da autoridade monetária.
A defesa de Thiago Miranda nega qualquer irregularidade. Em nota divulgada pela CNN, o advogado afirmou que o publicitário sempre atuou com legalidade, transparência e respeito às instituições, negando atos de intimidação, coação, constrangimento ou violação de direitos de terceiros. A defesa também afirmou que a existência de investigação não autoriza antecipação de culpa e que devem ser preservadas as garantias do devido processo legal, ampla defesa, contraditório e presunção de inocência.
A disputa entre Vorcaro e Esteves já vinha aparecendo em mensagens obtidas pela imprensa. Em março, a Folha de S.Paulo publicou diálogos nos quais Vorcaro afirmava à então namorada, Martha Graeff, que o Banco Central teria pedido que ele ouvisse uma proposta de André Esteves sobre o Master. Na mesma reportagem, o BTG afirmou que nunca teve interesse na compra do negócio do Banco Master e que fez apenas compras pontuais de ativos não problemáticos em momentos de falta de liquidez da instituição.
Mensagens divulgadas pelo Poder360 também indicavam que Vorcaro via Esteves como um adversário direto no processo envolvendo o Master e o BRB. Nos diálogos, o fundador do Master sugeria que o banqueiro do BTG teria tentado interferir na venda ao Banco de Brasília e mencionava uma suposta “guerra” com André Esteves. Segundo a publicação, Vorcaro também relatou que, posteriormente, o BTG comprou cerca de R$ 1,5 bilhão em ativos do Master, incluindo participações acionárias, imóveis e outros direitos.
O pano de fundo do caso é a crise que levou à liquidação extrajudicial do Banco Master. O Banco Central decretou a medida em novembro de 2025, citando grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira do conglomerado e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional. Também foram liquidados o Banco Master de Investimento, o Banco Letsbank e a Master Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários.
A tentativa de venda do Master ao BRB também se tornou alvo de investigação. Segundo a CNN, o BRB havia aprovado contrato para adquirir 49% das ações ordinárias, 100% das preferenciais e 58% do capital total do Master, operação posteriormente rejeitada pelo Banco Central. A PF e o Ministério Público Federal investigam se carteiras de crédito foram compradas pelo banco público para socorrer a liquidez do Master. A fraude investigada é estimada em R$ 12,2 bilhões.
A Reuters relatou que transferências entre BRB e Master somaram R$ 16,7 bilhões entre julho de 2024 e outubro de 2025, segundo decisão judicial. O juiz Ricardo Augusto Leite apontou indícios de que executivos do BRB teriam participado conscientemente de um suposto esquema fraudulento estruturado por gestores do Master, com potencial de causar prejuízos superiores a R$ 10 bilhões ao banco estatal.
Com a nova fase da Compliance Zero, a investigação deixa de mirar apenas a engenharia financeira do caso Master e avança sobre uma possível estrutura paralela de comunicação, influência e coleta de informações. Para a PF, os fatos investigados podem configurar crimes contra o sistema financeiro nacional, organização criminosa, embaraço à investigação de organização criminosa e delitos relacionados a violações de dados e dispositivos informáticos.
O avanço da apuração amplia o desgaste em torno de Vorcaro e do Banco Master. A suspeita de produção de dossiês contra André Esteves, somada à investigação sobre ataques ao Banco Central, monitoramento de jornalistas e possível obtenção de dados sigilosos, transforma o caso em uma crise que vai além do mercado financeiro. Agora, a Polícia Federal busca identificar quem participou da coleta de informações, como os dados foram obtidos, quem financiou as ações e se a estrutura investigada atuou para pressionar autoridades, constranger adversários e interferir no curso das investigações.
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